O IBGE divulgou que o PIB brasileiro cresceu 3,4% no primeiro semestre deste ano em comparação com o mesmo período de 2004. O resultado animou o governo a ponto do ministro Antonio Palocci afirmar que “o país ingressou num ciclo de desenvolvimento duradouro”.
Nos primeiros três meses de 2005 a trajetória do PIB mostrou-se anêmica, com bancos e empresas de consultoria calibrando seu crescimento para algo em torno de 2 a 2,5%. Os números recentes do IBGE indicam que a economia pode fechar este ano com expansão em torno de 3,5%.
Era de se esperar a euforia do governo com os números anunciados pelo IBGE. Os dados amenizam a forte pressão causada pela crise política gerada com as denúncias de corrupção patrocinada pelo PT.
O discurso do governo assegurando que o país estaria entrando num ciclo de crescimento sustentado deve ser analisado com muita cautela. No gráfico abaixo vemos que a trajetória do PIB desde 1990 mostra que após períodos de expansão sempre há uma forte recessão. O stop-and-go é a regra que vem prevalecendo nos últimos quinze anos.

Crescimento do PIB brasileiro nos últimos quinze anos
Em 2004 o PIB registrou um crescimento de quase 5% por conta da comparação com o fraco desempenho do ano anterior. Os fatores que puxaram para cima a economia no ano passado, e que continuam contribuindo para o bom desempenho em 2005, foram a expansão das exportações, dinamizadas pela forte demanda internacional, e o consumo das famílias, fortalecido pelo crédito consignado.
O crescimento anunciado pelo IBGE teve como destaque a expansão dos investimentos, que aumentaram 4,5% no segundo trimestre em comparação com os primeiros três meses deste ano, quando recuaram 3,6%. O crescimento do desembolso do BNDES, sobretudo para a indústria, foram decisivos para a alavancagem dos investimentos.
O fato é que há dúvidas a respeito da capacidade do país manter por longo tempo um ciclo de crescimento. Será que depois de crescer em 2004 e 2005 não vamos entrar numa nova fase de recessão como nos levam a deduzir o gráfico acima?
Além disso, os níveis atuais de expansão do PIB deixam a desejar. A economia global cresce em torno de 4,5% e os países emergentes perto de 6%. Quando expande menos de 5% o Brasil não consegue sequer absorver o crescimento vegetativo da população economicamente ativa. Para atingir esse nível a taxa anual de investimento teria que se manter em torno de 23% do PIB. Hoje gira em torno de 19 e 20%. Na China, que cresce mais de 8% há mais de uma década, os investimentos chegam a 35% do PIB.
Em suma, ainda temos muito que fazer para colocar o país na rota do crescimento de longo prazo em níveis que atendam nossas necessidades. É preciso aumentar nossa taxa de investimento em capital físico e humano. Isto será viabilizado quando o setor produtivo puder reduzir os 36% da renda que tem que recolher para o governo, sob a forma de impostos, e a escandalosa sangria de juros pagos aos rentistas, que deve chegar a quase R$ 150 bilhões este ano, for estancada.
Marcos Cintra Cavalcanti de Albuquerque, 59, doutor pela Universidade Harvard, professor titular e vice-presidente da FGV, foi deputado federal (1999-2003). Atualmente é secretário das Finanças de São Bernardo do Campo. É autor de "A verdade sobre o Imposto Único" (LCTE, 2003).
Internet:
www.marcoscintra.org E-mail -
mcintra@marcoscintra.org