Folha de S.Paulo - 10/11/2008

Depois da tormenta

         Marcos Cintra

  Uma tempestade, ou um incêndio, é terrível. Mas o pior pode vir depois, em seu rescaldo. A atual crise financeira semeou o pânico em todos os mercados do mundo.

  A globalização e os misteriosos instrumentos financeiros criados nas últimas décadas fizeram um trabalho de quase completa destruição da credibilidade das instituições financeiras mundiais.

  Felizmente, tudo indica que esse tempo passou. Mas fica uma esteira de destruição de valores por todo o espaço econômico global.

  Cabe agora juntar os cacos e avaliar o que o futuro nos reserva.

  Inicialmente, cabe apontar que, apesar de a violência do olho do furacão já haver se dissipado, o ambiente econômico é alarmantemente negativo. A crise financeira já contaminou os mercados reais. A falta de crédito, o entesouramento de valores e a suspensão dos investimentos já comprometeram o crescimento econômico futuro pela via dos canais de comércio e de transferências de capitais. A virulência da recessão que se avizinha já assusta as economias de todo o mundo desenvolvido, e a expectativa otimista de que os países emergentes seriam capazes de sustentar, ainda que fragilmente, a economia mundial torna-se cada dia mais irrealista.

  Nesse terreno desolado existe apenas a sensação confortadora de que a pronta ação das autoridades econômicas em todo o mundo foi capaz de controlar o pânico. Balões de oxigênio contendo pura liquidez foram distribuídos abundantemente, mas, como alertou Anna Schwartz, em entrevista recente, o problema fundamental pode estar alhures, ou seja, na perda de credibilidade do sistema quanto à sua solvência. Reconstruir esse monumental edifício pode levar décadas.

  O que esperar daqui para a frente?

  Certamente haverá um período de acomodação dos mercados, como o que estamos adentrando no momento. Os fundamentos econômicos passarão a ser reavaliados, e as oportunidades de investimento serão timidamente avaliadas nos próximos seis meses a um ano. Os primeiros balanços e demonstrações de lucros e perdas após a tormenta ainda irão assombrar os mercados e os investidores. A volatilidade e a incerteza irão prevalecer, porém dentro de faixas estreitas e mais racionais. Essa deverá ser a marca dos meses à frente. Determinar valor de qualquer ativo será uma tarefa difícil e altamente arriscada. Será a hora das oportunidades, quando surgirão os vencedores dessa crise, e quando o mundo estará escolhendo seus novos.

  Mas, como afirmei no início, o pior será o rescaldo. Como o mundo irá drenar a crescente liquidez que alaga os mercados mundiais? Como evitar as pressões inflacionárias que surgirão? Como refluir os capitais públicos que invadiram os “board rooms” das empresas em todo o mundo? Como evitar que a intervenção estatal, necessária no momento como um típico “bem público”, seja confundida com a estatização da gestão e com os ultrapassados métodos de produção centralizados? Como reconquistar credibilidade para o mercado e permitir que ele continue sendo o melhor mecanismo gerador de riqueza já usado pela humanidade? Como administrar o crescente endividamento do setor público e evitar o crescimento da carga tributária?

 

  Que blindagens contra futuras crises serão erigidas e que restrições ao crescimento econômico elas poderão implicar?

 

  Não temos respostas para essas dúvidas. O futuro será um emocionante desenrolar de novos desafios.