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  • Marcos Cintra - Folha de S.Paulo

A última cartada


Causa espanto o clamor de indignação dos economistas com o último pacote. Entende-se que a classe média, enormemente afetada pelas medidas, sinta-se prejudicada, e que alguns políticos queiram se vingar do PMDB pela sua vitória. Mas sem dúvida o governo está fazendo no momento o que tinha que fazer, o que todos lhe cobravam.

Mais do que a continuação de um programa de estabilização, mas medidas têm de ser interpretadas como uma derradeira e desesperada tentativa de salvar um plano anti-inflacionário que já nasceu cheio de contradições, e cujos defeitos foram ampliados pela inequívoca imperícia demonstrada pelo governo durante sua implementação.

Infelizmente os que hoje criticam ferozmente o novo pacote não demonstraram a mesma presteza em realizar que o Plano Cruzado não poderia dar certo, entendendo-se por dar certo a eliminação das causas crônicas da inflação brasileira. É preciso notar que o Cruzado teve um mérito: o de promover a desindexação. Porém, a reindexação será inevitável se os fatores estruturais causadores da espiral inflacionária não foram combatidos, e isto ainda não foi conseguido.

Como a Igreja, o governo Sarney fez uma opção preferencial pelos pobres. Ao promover um brutal ajuste fiscal –que, se efetivamente realizado, deverá extrair do setor privado cerca de 6% do PIB– as autoridades foram cuidadosas em preservas os níveis de renda da população de baixo poder aquisitivo, aumentos de impostos foram aplicados sobre produtos cuja participação nas despesas das famílias de baixa renda é relativamente reduzida, e que em geral têm pequeno impacto nos custos interindustriais. E, ao avançar mais um passo no processo de desindexação tenta-se evitar que a inflação corretiva resultante dos aumentos de preços seja propagada pelo restante da economia.

Funaro fez o ajuste que os economistas reclamavam, e ao mesmo tempo inicia um programa de administração de preços, inclusive cambio, em substituição ao rígido congelamento no qual, em realidade, ninguém mais acreditava. Finalmente e , pela primeira vez, o governo mostra concretamente que pretende fazer uma reforma administrativa com o objetivo de combater o déficit público, até mesmo mediante dispensas no quadro de funcionários, uma posição nunca antes assumida.

A atual administração econômica da sua última cartada. E na tentativa de permanecer no jogo assumiu uma estratégia de alto risco. A inflação corretiva de dezembro poderá gerar expectativas inflacionárias incontroláveis, ainda mais num momento em que a política de congelamento de preços se acha moribunda. O setor externo foi de tal forma negligenciado nos últimos meses que o controle da demanda interna e a política cambial adotados poderão ser insuficientes para repor os indispensáveis saldos comerciais. A desindexação das cadernetas de poupança, com seu atrelamento às LBC poderá causar perdas de depósitos e aumento de consumo neutralizando parte do efeito contracionista que o governo pretende implementar (mas neste caso ainda resta a derradeira opção de retornar ao regime mensal de remuneração). E finalmente, o pacote não demonstra qual será a estratégia para a retramada dos investimentos públicos e privados, sem os quais a recessão e não apenas uma contração, estará novamente entre nós, brevemente.

Marcos Cintra é doutor pela Universidade de Harvard, chefe do departamento de Economia da FGV em São Paulo e consultor de Economia desta Folha.

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