top of page
  • Marcos Cintra - Folha de S.Paulo

A tarefa de Maílson

A entrada do Ministro Maílson da Nóbrega no comando da política econômica brasileira reveste-se de importância, na medida em que representa o reconhecimento do fracasso dos planos heterodoxos de estabilização. Reiteradas vezes, o novo ministro já declarou que pretende implementar uma política econômica no estilo "feijão com arroz", sem grandes fórmulas salvadoras, sem misteriosos pacotes, sem grandes enfrentamentos internos ou externos. Isso não significa necessariamente uma política econômica ortodoxa em seus princípios ou conservadora em seus objetivos. Significa apenas que se pretende utilizar um arsenal de instrumentos convencionais.


Por outro lado, situar-se apenas pela negativa das linhas de conduta que vinham sendo adotadas anteriormente também tem pouco significado se não for acompanhada de definições de estratégias e de metas claras.


É certo que ainda não houve tempo para que o novo ministro delineie suas propostas de ação. Há que se aguardar manifestação dos vários grupos de trabalho que foram criados no Ministério da Fazenda. Contudo, apenas a certeza de que não haverá novos congelamentos ou choques já é um importante passo para a superação da atual crise brasileira. Igualmente significativo é o pragmatismo demonstrado por Maílson da Nóbrega na questão da renegociação externa, que passa a calibrar suas atitudes com base em critérios objetivos e quantificáveis, sem escravizar-se a palavras de ordem já desgastadas pelo insucesso.


As primeiras declarações de Maílson da Nóbrega sobre suas intenções de desatar o nó da dívida externa, de incentivar a entrada de capitais externos, de diminuir a presença do Estado na economia e de fazer cumprir o orçamento unificado já são indícios de que pretende introduzir alterações na condução da política econômica.


Há, contudo, que atentar para algumas dificuldades.


Na renegociação externa, dificilmente o bom-mocismo do ministro facilitará a obtenção de condições vantajosas para o país. De forma alguma o governo deve abdicar dos trunfos de que dispõe, conseguidos a elevados custos. Também não será uma tarefa leve a de reverter as expectativas dos agentes econômicos e convencê-los a ampliar seus investimentos produtivos. A meta de fazer o orçamento unificado não será simples, mormente agora que o presidente ainda negocia seu mandato. O sucesso na contenção dos gastos públicos será certamente o indicador mais importante de que o ministro efetivamente tem as rédeas da política econômica em suas mãos.


Redobrado cuidado deve reger o acompanhamento conjuntural da economia brasileira. É verdade que o crescimento industrial no ano de 1987 foi nulo e que a demanda acha-se desaquecida. Contudo, os dados de desemprego e de produção mostram que, comparativamente a 1985, o país cresceu, e os indicadores mostram uma retração apenas com relação a 1986, um ano de evidente excesso de demanda. Nestas condições - agravadas pela crônica retração nos investimentos -, qualquer movimento da retomada do crescimento, embora necessário, deve ser monitorado com grande cautela.


Apenas como um exemplo das dificuldades a serem enfrentadas nos próximos meses, cabe salientar que há uma clara tendência de recuperação dos salários reais. Os acordos entre patrões e empregados têm sido favoráveis aos trabalhadores. Começa-se mesmo a falar em correções mensais de salários pela inflação plena, acima, portanto, da URP. Além do mais, mesmo que a inflação se estabilize, os salários serão reajustados compulsoriamente em cerca de 15% a partir de março. Será uma fase de grandes tensões inflacionárias, que o ministro deverá administrar com imprescindível acuidade, sob risco de rápida aceleração inflacionária - isto, sem falar em eventuais choques de oferta.


A atual crise é profunda. Apesar do natural dinamismo da economia brasileira, sempre predisposta ao crescimento, a situação vai exigir uma política econômica ativa nos próximos meses.



 

MARCOS CINTRA CAVALCANTI DE ALBUQUERQUE, 41, é doutor pela Universidade de Harvard (EUA), diretor da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getulio Vargas e consultor econômico desta Folha.

Topo
bottom of page