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  • Marcos Cintra - Folha de S.Paulo

A conjuntura no segundo semestre

A inflação ao longo do ano de 1988 deverá ficar entre 16% e 20% ao mês, contrariando as expectativas pessimistas que predominavam no início do ano. O temor de uma escalada inflacionária encontrou respaldo nos primeiros meses do ano, quando a taxa de aumento dos preços saltou de cerca de 9% em outubro para quase 18% em fevereiro. Em apenas quatro meses, a inflação dobrou de patamar. Nos quatro meses subsequentes, no entanto, ela se estabilizou em torno de 19,5%, apenas cerca de dois e meio pontos percentuais acima, dissipando rapidamente a ameaça de uma espiral inflacionária ascendente.


Essa relativa estabilização da inflação se tornou possível graças aos esforços para conter os gastos públicos, resultando em um arrefecimento da atividade econômica em geral. As projeções oficiais em relação ao crescimento da produção indicam que 1988 será um ano de estagnação para o PIB brasileiro, uma situação preocupante considerando os níveis de pobreza em grande parte da população e o crescimento populacional superior a 2% ao ano. Isso implica em uma queda na renda per capita, mas ainda assim, o esforço de contenção imposto pelo governo está longe de corresponder à recessão severa dos anos de 1981 e 1983.


Entre janeiro de 1981 e fevereiro de 1982, o índice de produção industrial do IBGE caiu 20%. Houve outra queda em 1983, embora menos pronunciada, chegando a cerca de 6%. Durante esse período, a taxa de desemprego medida pelo IBGE aumentou de 7,6% em janeiro de 1981 para mais de 9% no início de 1982. Em meados de 1984, estava em torno de 8%.


No momento, o arrefecimento da economia não passa de uma contração. A taxa de desemprego está aumentando em 1988, mas ainda está abaixo de 5%. Nos primeiros cinco meses do ano, a produção industrial recuou cerca de 6% em comparação com o mesmo período do ano anterior. Portanto, não se compara à gravidade da recessão dos anos 1981-1983.


Em termos gerais, o plano de estabilização liderado por Mailson/Abreu já foi implementado. O congelamento da URP para os funcionários públicos, as restrições de crédito impostas a estados, municípios e empresas estatais, bem como as fortes contenções nos gastos do setor público federal já tiveram impacto na demanda. Na verdade, um início de recuperação observado nos meses de março e abril foi adiado devido a essas medidas de austeridade. Apesar da expansão da renda no setor agrícola e nas exportações, o primeiro semestre do ano termina com uma conjuntura morna, sem impulso de crescimento.


A questão que se coloca é o que esperar do segundo semestre. Com a inflação estabilizada e o governo cumprindo seus planos de contenção de gastos, é provável que a segunda metade do ano marque o início de uma recuperação. Os principais ajustes na demanda interna já foram realizados e, com a retomada dos pagamentos da URP aos funcionários públicos, 1988 pode terminar com um pequeno avanço em relação ao ano anterior.


O ponto crucial agora é manter a consistência da atual política econômica. Os maiores riscos não estão em uma nova fase de contração, mas sim em uma aceleração da inflação, que certamente ocorrerá se o governo não puder ou não quiser cumprir o que planeja fazer.


 

MARCOS CINTRA CAVALCANTI DE ALBUQUERQUE, 41 anos, doutor pela Universidade de Harvard (EUA), diretor da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getulio Vargas e consultor econômico desta Folha.

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