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  • Marcos Cintra - Folha de S.Paulo

O chicote e a cenoura

O Plano Collor é apenas uma parte da política econômica que o novo governo pretende implementar. Outras importantes medidas deverão ser adotadas se o presidente da República cumprir suas promessas eleitorais. A abertura para o exterior, o fortalecimento da iniciativa privada, a desestatização, a modernização industrial e um perfil mais equilibrado de distribuição de renda são apenas alguns dos pontos mais visíveis de uma plataforma eleitoral que soube conquistar a população do país. Todas essas metas, porém, jamais poderiam ser atingidas em uma economia distorcida e instável como a brasileira.


Não deve haver nenhuma surpresa, portanto, acerca da necessidade de extirpar a inflação do país antes de qualquer outra providência. As tentativas anteriores foram valiosas como aprendizado e mostraram conclusivamente que apenas uma política de choque radical poderia evitar a explosão hiperinflacionária. De certa forma, a atual equipe econômica contribuiu para precipitar a expectativa de um total descontrole da economia, ao não articular com o governo anterior um processo de transição mais suave. Com isso, tornou-se inevitável que o programa de estabilização fosse implacável. Um mês após sua edição, o Plano Collor revelou toda sua força. Isso não implica dizer que não tenha defeitos e fraquezas.


Começando pelas críticas. O programa de enxugamento da liquidez foi bruto, rudimentar e pouco sofisticado. Mexeu desnecessariamente na credibilidade das instituições financeiras. Recuperá-la não será impossível nem mesmo improvável, mas implicará custos que não precisariam ter sido incorridos.


A reforma cambial foi extemporânea. Poderia esperar alguns meses para ser implementada. No momento, é apenas mais um foco de instabilidade. As exportações estão sendo taxadas por um câmbio gravoso. Ao mesmo tempo, o governo dá mostras de desejar recuperar os saldos comerciais para acumular reservas. Portanto, não se obtiveram vantagens em termos de contração da oferta monetária e nem a valorização do cruzeiro contribui para o esforço antiinflacionário, pois as importações não estão ocorrendo por força da contração econômica e da estocagem ocorrida nos últimos meses do governo Sarney.


No plano operacional, o programa não está indo bem. O governo está agindo atabalhoadamente, sem organização e com muitos percalços. Embora a população em geral esteja aprovando as medidas, o setor empresarial acha-se sem diretrizes, em voo cego. O governo não indica rumos, o que tornará a recessão mais profunda e mais longa do que precisaria ser.


A queda permanente da inflação exige um ajuste fiscal igualmente duradouro. O governo ainda não foi capaz de demonstrar que a contenção fiscal vai muito além do diferimento dos custos financeiros e de ganhos de caixa insustentáveis nos próximos exercícios. O ajuste fiscal precisa ser permanente, mas não está sendo interpretado como tal.


As metas monetárias não são conhecidas. As pressões expansionistas estão se acumulando. Os saldos comerciais, as linhas de crédito do Banco Central, a expansão monetária endogenizada pela permanência do overnight tal como existia quando a inflação beirava 100% ao mês, são algumas fontes de expansão monetária que ainda não se encontram devidamente equacionadas. Era imprescindível aparar o excesso de liquidez do sistema. Da mesma forma, é fundamental evitar que a contenção monetária seja revertida.


Apesar dessas objeções e preocupações, o Plano Collor atingiu seu objetivo essencial: acabar instantaneamente com a inflação. As críticas levantadas geram apreensões quanto à permanência da inflação baixa. E amedrontam por seus acenos recessivos. Mas nem de longe condenam o Plano Collor ao fracasso. Uma administração competente, que faça uso dos instrumentos de política econômica à disposição do governo, deverá ser capaz de levar o programa a bom termo.


A estratégia de estabilização adotada implica altos custos. Isso não significa, contudo, que não possam ser transferidos, em sua maior parte, para as camadas sociais capazes de suportá-los. Por enquanto, os assalariados não foram prejudicados. As perdas patrimoniais foram gerais, os rentistas perderam privilégios, as margens de lucro devem cair. Para que as metas distributivas do governo sejam realizadas, é preciso agora prosseguir incansavelmente com o enxugamento do setor público.


O Plano Collor tem falhas que podem ser corrigidas, sofre ameaças que podem ser contornadas e tem méritos que precisam ser preservados. Não obstante, é preciso lembrar que o sucesso do programa de estabilização deve ser a senha para o início de profundas reformas estruturais. O Plano Collor é o chicote; uma sociedade moderna, eficiente e justa é a cenoura que vislumbramos adiante.

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