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  • Marcos Cintra - Folha de S.Paulo

Poucas chances de sucesso


De forma inédita no Brasil uma mesma equipe econômica tenta, pela segunda vez, aplicar um plano de estabilização. Esta perseverança do presidente Collor, contudo, poderá custar caro. As chances de sucesso são mínimas, possivelmente inexistentes.

O Plano Collor 2 se tornou necessário após o insucesso do Plano Collor 1 e após a frustrada experiência da política econômica convencional do segundo semestre do ano passado. O programa de estabilização apresentado na sexta-feira terá o mérito de ganhar algum tempo, pois a economia caminhava para uma hiperinflação. Nesse sentido, foi oportuno. Porém, não terá condições de controlar a inflação a longo prazo.

No papel, o Plano Collor 2 demonstra virtudes que, contudo, dificilmente serão verificadas na prática. Falta ao governo a condição inicial para lograr êxito, ou seja; credibilidade, espírito de liderança, iniciativa e capacidade gerencial. Poucos acreditam no sucesso do plano. Nestas condições, não dará certo. Com a palavra, os analistas políticos.

Do ponto de vista técnico, o Collor 2 tem 'três grandes problemas. O primeiro é a inviabilidade de sustentação do congelamento de preços. O tarifado e os aumentos nominais de salários poderão inviabilizar a produção em vários setores da economia, principalmente os mais intensivos em mão-de-obra e mais próximos de futura data-base.

Em segundo lugar, as aplicações financeiras de curto prazo fugirão, em grande parte, dos fundos criados pelo governo. Não houve, para todos efeitos práticos, a extinção do overnight. Houve apenas a criação de mecanismos de controle mais fortes sobre a carteira de títulos das instituições financeiras, objetivando abrir espaço forçado colocação de títulos públicos o mercado começou a rejeitai. Assim, os recursos poderão migrar entre outras alternativas, para ativos reais, para o dólar paralelo ou para a antecipação do consumo. Esta última hipótese reforçada pela pouca credibilidade do plano, pelo congelamento em si e pela expectativa de uma rápida reinflação.

O terceiro problema se prende ao uso do novo indexador, a taxa referencial de juros. Embora desvinculação entre os custos de vida e o indexador da economia seja altamente louvável, o novo índice de correção monetária poderá mostrar grande volatilidade. Além disso cabe apontar que, se antes existia uma perversa conexão entre inflação passada e futura, agora passada existir uma nova e perigosa ligação entre o rigor da política monetária e a variação de preços.

Assim, uma política monetária austera, ao invés de reduzir, poderá alimentar automática e diretamente a inflação, contaminando os demais preços da economia.

MARCOS CINTRA CAVALCANTI DE ALBUQUERQUE. 44, é doutor pela Universidade de Harvard (EUA), professor da Escola de Administração de Empresas da Fundação Getúlio Vargas, consultor de economia da Folha e presidente regional do PDS.

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