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  • Marcos Cintra - Folha de S.Paulo

Atos de coragem


Não há mais tempo a perder com experiências que já se revelaram ineficazes no passado. O país clama por mais liberdade econômica, regras claras e estáveis, respeito pela ordem econômica, respeito pela ordem jurídica, e um efetivo equilíbrio entre os poderes. Apenas nestas condições se tornarão possíveis a independência da autoridade monetária, a liberalização dos mercados, a reforma tributária e a estabilização.

A estabilidade da moeda e a retomada do crescimento exigem reformas estruturais, além de uma política conjuntural consistente com aqueles objetivos. A contenção monetária e fiscal foi perfunctória. Em realidade, a causa fundamental da ineficácia da política anti-inflacionária é não haver segurança de que se introduziu um novo regime de política econômica.

Portanto, torna-se imprescindível um primeiro ato de coragem: decretar a independência do Banco Central, ou lastrear o cruzeiro.

Em realidade o que se busca é um regime que possa garantir o valor da moeda. Atrelá-la a uma moeda externa, ou dar-lhe um lastro metálico são espécies do mesmo gênero de uma autoridade monetária independente. Neste último caso a responsabilidade de administrar a moeda é do governo, ao passo que nos outros dois esta responsabilidade é delegada a autoridades de outras economias, ou então às forças do mercado internacional. Usar as reservas de moedas conversíveis e ouro para lastrear o cruzeiro é uma alternativa de política econômica que merece análise mais detalhada, como aliás sugerida em artigo publicado na última quinta-feira pelo ex-ministro João Sayad.

Complementarmente, a adoção de políticas que visem fazer retornar à economia brasileira parte do capital que se encontra no exterior (fala-se em até US$ 50 bilhões), e com isto gerar lastro para o cruzeiro, é alternativa que parece viável, desde que implementada por uma equipe econômica confiável e identificada com as regras do mercado.

Apenas uma administração monetária que tenha como única meta a preservação do valor 4ª moeda será capaz de reconquistar a confiança do público. O Executivo e o Legislativo devem desempenhar apenas um papel de fiscalização e acompanhamento. Desvincular a administração monetária de qualquer conteúdo político é condição dolorosa, porém fundamental para o rápido término da inflação no Brasil.

Marcos Cintra Cavalcanti de Albuquerque, doutor em Economia pela Universidade de Harvard (EUA).

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