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  • Marcos Cintra - Folha de S.Paulo

Batalha de expectativas


A política de estabilização do governo Collor vem enfrentando um grande obstáculo — o da credibilidade. As linhas mestras do programa anti-inflacionário estão corretas no curto prazo. A contenção fiscal foi obtida no ano passado, e a política monetária, com altos e baixos, vem obtendo os efeitos esperados. Contudo, a equipe econômica não vem contabilizando sucessos. As previsões de que a inflação de janeiro não cederá, após uma inesperada e intrigante elevação em dezembro do ano passado, acentua as expectativas de que a situação não se encontra sob controle.

Não se trata de discutir a competência técnica dos membros da equipe econômica. O problema maior está em propor e implementar um programa econômico consistente e capaz de obter apoio dos agentes econômicos. Os resultados de curto prazo Obtidos ao longo dos últimos meses ainda não se materializaram em quedas na tendência inflacionária. Corre-se o risco de que essa passagem acabe não ocorrendo caso as reformas estruturais não sejam viabilizadas. Nessa tarefa, contudo, governo como um todo vem sendo uma enorme decepção.

Além das dificuldades imprevistas — como a guerra no Pérsico, que já impôs prejuízos ao controle da inflação independentemente do andamento do conflito armado — a atuai administração encontra- enormes dificuldades para impor seus projetos de reforma. Também a postura das autoridades tem sido criticável, o que compromete seus esforços de obtenção de respaldo político, e desfaz qualquer expectativa de que a atual contenção fiscal e monetária possa reduzir a inflação.

O mais angustiante é que a manutenção da política de austeridade fiscal e monetária não poderá ser sustentada por muito mais tempo sem o amparo de medidas de longo prazo que cheguem à raiz do fenômeno inflacionário brasileiro. Em breve, as pressões para a retomada do crescimento serão insuportáveis.

No atual quadro, as expectativas tornar-se-ão mais inflacionárias, o que fará com que o fantasma da hiperinflação volte a rondar a economia brasileira. O governo parece saber o que deve fazer. Mas não sabe como.

Marcos Cintra Cavalcanti de Albuquerque, doutor em Economia pela Universidade de Harvard (EUA).

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