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  • Marcos Cintra - Folha de S.Paulo

O artigo do presidente


O artigo de autoria do presidente Collor publicado hoje na Folha — que deverá ser complementado por uma sequência de outros ensaios — é um indício das dificuldades que poderão ser encontradas na superação da atual crise econômica brasileira. Há muita retórica; excessiva verborragia. E nenhuma proposta conceitual sólida capaz de emoldurar mais esta tentativa de se obter um pacto social. O artigo publicado hoje é apenas uma introdução. Deverá ser acompanhado por propostas mais concretas. No entanto, a própria terminologia empregada — Agenda para o Consenso — dá os primeiros sinais de sua possível fragilidade. Se o presidente busca o consenso, fica patente que não logrará sucesso e que se trata apenas de mais uma investida mercadológica. A superação da atual crise não depende de consenso, mas de negociação madura. A busca de consenso resultará apenas em enunciados vazios, como os que o presidente enumerou em seu artigo. A questão é como chegar aos itens consensuais listados. Ainda mais esdrúxula é a conceituação "social-liberal" apresentada. O liberalismo não exige qualquer qualificação, sob risco de se transformar em estéril hibridismo. A doutrina liberal, "tout court", já é garantia de respeito e subordinação aos objetivos de bem-estar social. Não há que qualificá-la. Afinal, o libera lismo não tem compromisso com práticas econômicas, políticas e sociais que representam qualquer retrocesso na busca do absoluto respeito ao indivíduo e no oferecimento de igualdade de oportunidades a todos os cidadãos. Não obstante a inadequação do introito ao entendimento que o presidente 'Procura, há que se reconhecer que foi dado o primeiro passo. Resta saber se, nos u artigos que seguirão, haverá um rol de propostas concretas e plausíveis sobre as quais a sociedade poderá se debruçar. O quadro conjuntural brasileiro apresenta grandes focos de rigidez. Desatá-los será tarefa penosa que exigirá capacidade de liderança e confiabilidade por parte do governo. Nesse sentido, apenas o presidente, poderá desempenhar o papel de grande mediador. A efetiva participação do próprio presidente da República nas discussões será inequivocamente a senha para •a obtenção de alguma parcela de sucesso.

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