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  • Marcos Cintra - Folha de S.Paulo

Os atalhos de sempre


Duas informações veiculadas na imprensa mostram que o quadro econômico não dá margens para otimismo. Nos dois casos parece que se está voltando atrás nas páginas da história, percorrendo-se um caminho de frustrações já trilhado.

O primeiro deles se refere às intenções de o governo reiniciar entendimentos visando um pacto social. Volta-se a falar em prefixação, em câmaras setoriais e em outras formas de se implantar consensualmente uma política de rendas.

Se as lições do passado valem alguma coisa, não há como deixar de reconhecer que este tema sempre retorna ao centro das discussões em momentos de crise. Sem espaço para implementar uma política abrangente e consistente de estabilização, o governo apela para a boa vontade dos agentes econômicos, na vã expectativa de que um acordo entre os vários segmentos econômicos seria capaz de estancar um surto de instabilidade iminente.

Há nesta expectativa uma contradição inerente ao próprio quadro conjuntural que suscita esses devaneios. Não há legitimidade e credibilidade por parte do governo para coordenar o processo de entendimentos sociais. A crise política e moral que tomou conta do país é por si só um empecilho para que um acordo social possa frutificar.

A segunda informação desalentadora se refere ao plano de reforma tributária. O projeto apresentado pelo governo não teve a aceitação necessária para se tornar a pedra de toque da política de estabilização. O andar da carruagem indica que o final desse projeto de reforma fiscal será o mesmo de seus antecessores, ou seja, um atabalhoado conjunto de novos impostos com objetivos estritamente fiscalistas.

Pode-se antever a repetição do que vem ocorrendo pontualmente a cada fim de ano. O governo consegue aprovar com dificuldade alguns projetos tributários, mas sem coerência com as necessárias reformas estruturais do país. Criam-se apêndices tributários de última hora apenas para evitar o completo estrangulamento do Tesouro Nacional. E o que ocorrerá se tudo acabar na criação do imposto sobre combustíveis, na tributação sobre os resíduos do Sistema Financeiro da Habitação e na deturpação da proposta do Imposto Único sobre Transações.

Nesse ritmo de frustrações e de desapontamentos só restará ao governo a continuação da política monetária fortemente restritiva. Se o país aguentar essa angustiante asfixia.

MARCOS CINTRA CAVALCANTI DE ALBUQUERQUE. 45, é doutor pela Universidade de Harvard (EUA), professor da Escola de Administração de Empresas da Fundação Getúlio Vargas, consultor de economia da Folha e presidente regional do PDS.

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