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  • Marcos Cintra - Folha de S.Paulo

Por que as reformas não andam


O sistema de representação no Brasil impele o político a ampliar benefícios. Nunca o induz a limitar, reduzir ou cortar; na melhor das hipóteses, a deixá-los como estão. ​ Conceitos como isonomia e justiça social, aliados a uma forma de representação política difusa, fazem com que o homem público comum se sinta forçado a atender interesses paroquiais, familiares, e até mesmo pessoais de seus supostos eleitores, mesmo suspeitando que o interesse público não esteja sendo promovido. ​ O risco de retaliação eleitoral é pequeno. A representação difusa não irá responsabilizar o parlamentar pelos danos causados aos grupos de interesse eventualmente prejudicados. ​ Não é momento para analisar as soluções. Outros saberão fazê-lo. Mas a mera aceitação deste diagnóstico já é passo fundamental na busca de saídas para grandes impasses no país. ​ Ele explica por que o atual governo federal, eleito brandindo as bandeiras das grandes reformas constitucionais, não consegue romper o impasse e caminhar na direção das mudanças. Os lobbies contrários, mesmo minoritários, acabam sensibilizando o Parlamento. ​ O Plano Real vai soçobrar se o ajuste fiscal não for realizado. As reformas tributária, previdenciária e administrativa não saem do papel. Os grupos de interesses contrariados pelas reformas se mobilizam, o que é legítimo em uma democracia representativa. Mas o inaceitável é que os políticos cedam a pressões localizadas. ​ Esta lógica eleitoral está inviabilizando as reformas, o Plano Real, o futuro do país. ​ O que diferencia o político comum do estadista é que o primeiro sucumbe às condições impostas para sua sobrevivência política; o estadista não se submete, e coloca o interesse coletivo acima de tudo. Mas o primeiro se reelege, ao passo que o segundo, na melhor das hipóteses, consegue ser mencionado nos livros de história como político menor, ainda que bem-intencionado, sério e respeitado, mas derrotado nas urnas, e incapaz de transformar projetos em realidade.

Marcos Cintra Cavalcanti de Albuquerque, doutor em Economia pela Universidade de Harvard (EUA).

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