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  • Marcos Cintra - Folha de S.Paulo

História de um governo de plástico

Que as comemorações dos 500 anos do Descobrimento tenham sido um retumbante fracasso, já é reconhecido por todos. Violência, intolerância, elitismo, falta de imaginação, hilariantes fracassos náuticos, enfim uma festa que, por ter sido tão esperada, revelou-se profundamente decepcionante. Ao rol desses pouco edificantes conceitos acrescentem-se mais alguns: pseudomodernidade, frivolidade e desperdício. Explico. Há cerca de dez meses, o Banco Central anunciou a intenção de lançar cédulas comemorativas dos 500 anos do Brasil. Na sequência, soube que a empresa localizada em Salto (SP) que fornece o papel de algodão utilizado na confecção das cédulas brasileiras, desejosa de colaborar com a festividade, havia oferecido gratuitamente ao governo papel necessário para fazer 2 milhões de cédulas comemorativas, mas que a oferta nem sequer mereceu resposta do Banco Central. Comecei a ficar intrigado. Tomei conhecimento, logo após, da afirmação do Banco Central de que a emissão comemorativa seria também "experimental", com o intuito de avaliar as qualidades de um novo material na confecção de cédulas de plástico, chamado polímero. Fiquei desconfiado. Os 500 anos seriam mero pretexto para um novo projeto monetário? Tentei tranquilizar-me, querendo acreditar que a justificativa festiva poderia estar dando início a um experimento interessante do ponto de vista de inovações tecnológicas. Descobri, então, que as novas notas de plástico de R$ 10 substituiriam 50% das de papel que se acham em circulação. E que, após esse "teste", 15% de todas as notas em circulação no país seriam de plástico. Pareceu-me mais que um mero experimento. A inquietação crescia. Formulei requerimento ao Banco Central, por intermédio da Câmara dos Deputados, solicitando maiores informações, afinal o que era para ser uma emissão festiva começava a perder, para mim, parte do brilho da iniciativa. Com a resposta, tudo revelou-se profundamente decepcionante. O plástico, o tal polímero, é importado da Austrália e custará US$ 26 milhões. O Banco Central não soube informar se houve concorrência para sua compra, mas acredito que tenha sido adquirido sem licitação, já que apenas uma empresa, uma estatal australiana, o fabrica. O Banco Central apontou qualidades no novo material, tal como durabilidade quatro vezes maior que as cédulas de papel e consequente redução do custo de manutenção do meio circulante, além de maior dificuldade de falsificação. O curioso, contudo, é que apenas dois países no mundo tenham descoberto tais vantagens: o pai da criança, a Austrália, e sua vizinha, Nova Zelândia. Alguns outros países, segundo o Banco Central, "já usaram polímero em suas cédulas", tais como Brunei, Samoa, Kuait, Papua-Nova Guiné e Romênia. Mas o curioso mesmo é que as economias mais importantes do mundo ainda não tenham descoberto as vantagens do polímero. Em realidade, nem poderiam utilizar tal inovação, pois nos EUA e na Comunidade Européia a confecção de dinheiro está legalmente protegida, inclusive no que respeita à nacionalidade das empresas fornecedoras, proibindo-se fornecimento estrangeiro -e com muito maior razão, por razões estratégicas, se o fornecedor for um monopolista mundial, como ocorre com o polímero. Mas a maior decepção acha-se no descaso do Banco Central para com a produção nacional. Em primeiro lugar, mesmo que a longo prazo o custo da cédula de plástico seja menor (mas isso ainda necessita ser testado no Brasil), trata-se de um dispêndio inicial em dólares para um produto com sucedâneo quase perfeito e com custos em reais. Sabe-se que o déficit comercial externo ainda ronda o país e que o valor social de um dólar para o Brasil pode ser maior do que seu valor no mercado de câmbio. Ademais, que lógica perversa leva o governo a desnecessária e caprichosamente gerar empregos e renda na Austrália em plena festa da cidadania brasileira? Quando as expectativas e o entusiasmo nacional, em face dos eventos comemorativos do Descobrimento, ensejam a reafirmação de nossa soberania, assim como a convalidação dos episódios que nos trouxeram até aqui como povo, nação, cultura e civilização, chega a ser asinino integrar à festa dos 500 anos a emissão de dinheiro brasileiro feito com matéria-prima estrangeira. Como não ponderar as variáveis simbólicas fortíssimas que estariam a presidir essa idéia estapafúrdia, mascarada de imaginosa? Por pressa, ou por irreflexão, ou, quem sabe, por equívoco, o Banco Central abraçou a causa do fornecedor. O povo brasileiro esperava comemorar os 500 anos de forma mais digna e mais condizente com a grandiosidade que a data sugere. O dinheiro de plástico, além de ser uma idéia artificial, frívola e pseudomoderna nos sugere uma instigante questão: para que usar algodão brasileiro se for possível exibir o elegante e sofisticado plástico australiano? O Brasil, ora, o Brasil, para o governo isso parece não ter importância.

Marcos Cintra Cavalcanti de Albuquerque, doutor em Economia pela Universidade de Harvard (EUA).

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