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  • Marcos Cintra - Folha de S.Paulo

Sauípe: um pecado no paraíso


O festejado complexo turístico Costa do Sauípe tem uma face sombria que precisa ser exposta. ​ No dia 12 passado, por iniciativa do deputado Geraldo Magela (PT-DF), a Comissão de Fiscalização e Controle da Câmara dos Deputados convidou o sr. Luiz Tarquinio Sardinha Ferro, presidente da Previ -o fundo de pensão do Banco do Brasil, proprietário daquele resort turístico- para dirimir uma simples dúvida: por que uma obra de empreitada global, comprada a preço fechado de R$ 200 milhões, acabou custando cerca de R$ 100 milhões a mais do que o inicialmente contratado? ​ O projeto mudou tanto para que o custo aumentasse tão substancialmente? A resposta do presidente da Previ, totalmente inconvincente, foi a de que não houve grandes mudanças. Elas se restringiram à complementação de itens subavaliados no projeto original, como carrinhos de golfe a menos, cozinhas com poucos equipamentos e banheiros inadequados, dentre outros similares. Mas a realidade é outra. ​ O projeto nasceu sob o conceito de que os hotéis deveriam ser empreendimentos diferenciados, com um total de 1.650 apartamentos, focados em segmentos de mercado distintos, a fim de criar um conjunto de alternativas para todos os gostos. Os hotéis não competiriam diretamente pela mesma clientela. ​ Hoje, após todas as mudanças operadas pela diretoria da Previ em seguida à troca de comando da empresa, que passou ao atual presidente no início de 1999, Costa do Sauípe é um projeto bem diferente do original. ​ É um complexo de cinco hotéis de cinco estrelas, quase todos voltados para o mercado de convenções e competidores diretos entre si. Apesar do imenso acréscimo de custo, o projeto ficou menor: 1.412 apartamentos no total, como diz o jornal baiano "A Tarde" (15/12). ​ No início do ano passado, apresentei requerimento à Previ pedindo informações sobre o projeto, pois já suspeitava que as mudanças não eram saudáveis para o equilíbrio financeiro do empreendimento. O sr. Tarquinio respondeu-me que a Previ não estava sob o domínio público e que não forneceria todos os esclarecimentos que a Câmara dos Deputados solicitava. ​ Quase dois anos depois, em meu questionamento em audiência pública, citei um relatório interno da Sauípe S.A. que detalhadamente explicava que um grupo de companhias hoteleiras de nível internacional, cogitadas pela diretoria da Previ para operarem o projeto, havia analisado o empreendimento e recomendado adaptações orçadas pela Construtora Norberto Odebrecht em R$ 17 milhões. ​ Subitamente, com a entrada do sr. Tarquinio na presidência da Previ, tudo mudou. O projeto sofreu alterações de rumos e, por conta de suas decisões, a mesma construtora apresentou uma nova proposta de mudanças, agora de quase R$ 165 milhões. ​ Ao ser indagado sobre essas mudanças, o sr. Tarquinio disse não se lembrar dos detalhes, pois teriam sido muitas as alterações solicitadas. E gabou-se de ter negociado com a construtora um aditivo de apenas R$ 87 milhões, como se fossem centavos! Ainda por cima afirmou haver pendências de mais de R$ 33 milhões! ​ O deputado Hélio Costa (PMDB-MG) perguntou se a Previ havia contratado uma auditoria durante a obra, pois sentia um "cheiro de superfaturamento". A resposta foi simplesmente negativa. A Previ não havia contratado nenhuma auditoria. ​ O empreendimento, em suma, custou cerca de 50% a mais do que o contratado inicialmente (o que daria para construir dois hotéis), ficou menor do que o planejado (238 apartamentos a menos, quase um Praia do Forte Resort a menos), sua inauguração ocorreu com um ano de atraso (diminuindo o retorno do projeto) e a mudança da forma contratual com os operadores hoteleiros pode ter trazido prejuízos ainda maiores para a Previ. ​ Vale a sugestão surgida na audiência pública de instalarmos uma CPI para investigar os fundos de pensão. Afinal Costa do Sauípe pode ser um lugar magnífico para passar as férias, mas com certeza não aparenta ser um local para o repouso de consciências.

MARCOS CINTRA, doutor em economia pela Universidade Harvard (EUA), professor titular e vice-presidente da Fundação Getulio Vargas.

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