• Marcos Cintra - Folha de S.Paulo

Neuróticos e improdutivos


Pode aparecer que hoje não escreverei sobre economia. Mas o tema que abordarei tem profundas implicações econômicas. Trata-se da calamidade nos transportes e nos congestionamentos na cidade de São Paulo. ​ Hoje já não é preciso muito para que os congestionamentos ultrapassem 200 quilômetros. Uma blitz policial, um ou dois carros quebrados e mais alguns acidentes nas principais vias de circulação e a cidade pára. A probabilidade de que uma combinação desses fatores ocorra aumenta a cada momento, na medida em que a frota paulistana supera 5,9 milhões de veículos e todo mês 30 mil novas unidades são adicionadas a ela. ​ As consequências dessa situação são dramáticas. Estimar o que isso significa em valor produziria números assustadores, que certamente agravam o “custo Brasil” e reduzem as vantagens competitivas das produções paulistana e brasileira. ​ O desgaste dos equipamentos causados pelos congestionamentos, a poluição que geram e o aumento do consumo de combustíveis já são aspectos negativos consideráveis em qualquer análise econômica. Contudo isso será pouco quando comparado ao valor econômico das horas de trabalho desperdiçadas e na perda de qualidade de vida dos habitantes da cidade, causada pelo desgaste físico e psicológico do trânsito parado. ​ Hoje, durante o período do rodízio, os congestionamentos em São Paulo atingem em média 85 quilômetros pela manhã e 120 quilômetros à tarde/noite. Considerando que essa situação ocorre em vias duplas (quatro pistas) temos cerca de 615 mil carros. Caso sejam ocupados em média por duas pessoas, são cerca de 3,7 milhões de trabalhadores parados por hora. Se nesse período eles pudessem produzir, ao custo de três salários mínimos, a previsão de perda diária supera R$ 105 milhões, ou mais de R$ 27 bilhões no ano. Há solução? ​ Transportes coletivos, com ênfase em investimentos em metrô, são sempre citados como a solução futura para esses problemas. Mas até lá o que poderá acontecer? A carência de recursos é enorme e nem sequer iremos atingir níveis de investimento para começar a resolver a situação. ​ Essa posição passiva implica dizer que não haverá solução até o país se tornar rico e ter recursos para investir ou atrair investimentos externos. Mas isso não ocorrerá com essas condições de trânsito, que geram “deseconomias” externas e restringem a capacidade de crescimento da renda, do emprego e dos recursos para investimento. ​ Provavelmente o problema se encontre no modelo de circulação adotado em nossa cidade. Creio que há como reduzir os congestionamentos e assim esperar até que os investimentos em transportes coletivos sejam aumentados e gerem efeitos positivos. Buscar soluções deve ser a prioridade de qualquer governo, mas simplesmente não fazer nada até que isso ocorra é suicídio econômico e tortura mental e psicológica para a população. ​ O sistema viário de São Paulo é arterial, herança dos planos urbanos do passado e do conluio entre grandes empreiteiros e administradores públicos. É preciso revascularizar com urgência a estrutura viária paulistana, pois as artérias entupiram. Voltarei a tratar do tema no próximo artigo. Só lamento que as autoridades de nossa cidade se omitam, e simplesmente esperem recursos para investir em transporte e trânsito. ​ Enquanto isso, o “custo São Paulo” explode, e a população é obrigada a ficar cada vez mais tempo dentro de seus veículos, tornando-se mais neurótica e menos produtiva.

MARCOS CINTRA, doutor em economia pela Universidade Harvard (EUA), e professor titular da Fundação Getulio Vargas.

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