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  • Marcos Cintra - Folha de S.Paulo

Um novo figurino?


O acordo do governo com o setor automobilístico não será uma tábua de salvação. Porém, ao que parece, demonstra boas intenções de todas as partes envolvidas.

O governo abre mão de parte dos tributos que incidem sobre a produção; os trabalhadores, já excessivamente prejudicados com as perdas do poder aquisitivo de seus salários, concordaram a estabilidade de emprego por alguns meses, muito menos do que pleiteavam e certamente aquém do que mereceriam; e as empresas aceitaram reduções de suas margens de lucro.

Se todos cumprirem o acordo, abre-se um caminho importante de transição para um patamar inflacionário mais baixo, sem recurso a métodos no mínimo duvidosos, como congelamentos, prefixações lineares, ou formas de dolarização da economia.

O importante neste acordo é que ele foi selado a partir de uma realidade concreta, ou seja, a premente necessidade de se estabilizar a economia.

A sociedade já sentiu que o governo está determinado a aplicar uma política ortodoxa de estabilização, a qualquer custo.

Sabe-se também que, na ausência de entendimentos amplos, o caminho será doloroso. Assim, o acordo obtido no setor automobilístico divide sacrifícios entre todos os envolvidos.

O que se espera é que o acordo reflita mais do que apenas uma acomodação entre o governo e um setor poderoso, como o automobilístico, capaz de exercer pressão sobre a administração pública.

O fundamental para convencer a sociedade de que se trata de um novo caminho rumo à estabilidade de preços é a concretização de negociações semelhantes em outros segmentos da economia.

São preocupantes as informações de que o preço dos automóveis nas revendedoras não será reduzido e que apenas deixará de sofrer nova majoração. Caso se passar a impressão de que se trata apenas de mais um privilégio concedido ao "big business", tudo irá pelos ares. E mais um instrumento de controle inflacionário terá sido desmoralizado.

O momento exige maturidade e compreensão. Para ser um bom acordo precisa ser bom para todos: produtores, consumidores e governo. E que nenhuma das partes queira tirar vantagem da situação.

Marcos Cintra Cavalcanti de Albuquerque, doutor em Economia pela Universidade de Harvard (EUA).

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