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  • Marcos Cintra

Ajuste vira por contração ou inflação

O governo se regozija pelo fato de o consumo haver explodido e os salários estarem aumentando. Não importa, dizem as autoridades, que o descompasso entre a demanda e a produção de bens e serviços amplie pois, segundo elas, o aumento da oferta virá a reboque.


Não é privilégio da administração aplaudir uma melhora no padrão de vida dos brasileiros; até os mais desalmados economistas desejam o mesmo. Onde existe discordância, entretanto, é saber se a exacerbação da demanda não irá comprometer o plano de estabilização e consequentemente reverter o crescimento dos salários reais. Enquanto o governo se vangloria dos atuais níveis de consumo, esquece-se do risco de instabilidade, e de que o valor presente do fluxo futuro de salários reais poderá ser menor do que aquele que resultaria de uma política econômica que objetivasse um crescimento moderado, porém estável. Vale lembrar que no caso de haver instabilidade no crescimento, criando-se expectativas de eventual desemprego, as taxas de desconto para o cálculo do valor presente do fluxo de salários aumentam consideravelmente; passa-se a dar maior valor a uma renda estável (embora possa ser mais baixa) do que a outra que seja mais elevada porém instável (e que poderá mesmo ser nula em alguns pontos).


Em realidade não existe uma política salarial. As regras que constavam do decreto-lei 2284 já foram superadas pelas forças do mercado. A maioria das empresas está sendo forçada a conceder reajustes e antecipações, - o salário médio aumentou 12% desde março último em São Paulo - e a maioria das negociações dos últimos meses tem resultado em reajustes de cerca de 15% em cima dos reajustes anteriores já concedidos pelas empresas.


Em sua passagem pelo Brasil, Franco Modigliani ressaltou não acreditar que a drástica elevação da massa salarial seja a principal causa da exacerbação da demanda. Argumenta que estaria ocorrendo uma transferência de renda, dos lucros para os salários, e coloca em dúvida a assertiva de que a propensão marginal a consumir dos assalariados seja significativamente mais elevada que a dos rendimentos do capital.


Mas o impacto pelo lado da oferta - pelos custos de produção numa economia de preços congelados - pode ser substancial. É preciso não esquecer algumas lições elementares de teoria microeconômica, entre elas o fato de que, pressionadas pelo mercado, as empresas continuarão produzindo mesmo que acumulem prejuízos; basta que consigam cobrir seus custos variáveis. Entretanto, elas suportarão as perdas somente a curto prazo; a longo prazo deixarão de investir e desativarão suas plantas, iniciando-se assim um processo contracionista. Como o resultado de uma postura rígida do empresariado na questão salarial seria a paralisação da produção, explica-se por que as contra-propostas patronais têm sido tão satisfatórias aos assalariados.


A continuidade desta não-política salarial, que o governo condescendentemente permite acontecer, pode ter dois resultados. Se persistir o controle dos preços, corre-se o risco da contração econômica; se, por outro lado, como consequência desta própria não-política, o governo se vir forçado a liberar preços para recompor as margens empresariais, sem dúvida a corrida salários-preços estará brevemente entre nós, mais uma vez.


Praticamente, vive-se hoje no Brasil uma situação de livre negociação salarial, mercado de trabalho extremamente aquecido e preços congelantes com uma situação de crescimento econômico estável. A persistir este quadro, qualquer que seja o desenlace, os assalariados acabarão tendo de arcar com as consequências.




MARCOS CINTRA CAVALCANTI DE ALBUQUERQUE é Doutor pela Universidade de Harvard, professor-titular e chefe do departamento de Economia da FGV/SP e Consultor de Economia desta Folha.

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