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  • Marcos Cintra

Brasil não é prioridade no mundo

A imagem e o prestígio de países, assim como o de pessoas, oscilam ao longo do tempo, influenciados por diversos fatores. O Brasil já foi considerado em todo o mundo como um dos exemplos mais notáveis de determinação e sucesso na busca pelo desenvolvimento econômico. Durante a década de 70, quando a economia brasileira exibia um dinamismo sem igual entre os países em desenvolvimento, era evidente para empresários, turistas e estudantes brasileiros no exterior que havia um interesse especial em estabelecer relações de todos os tipos com o Brasil. A entrada de capitais de risco, além de empréstimos, era significativa, o que impulsionou a poupança bruta disponível para investimentos.


Hoje em dia, a situação é completamente diferente. Tanto a América Latina como o Brasil em particular experimentaram uma deterioração considerável em sua imagem no exterior. O Brasil perde cerca de US$ 3 bilhões anuais devido a remessas de lucros, dividendos e repatriações de capital, além dos juros que deve. Deixou de ser uma prioridade na escolha de oportunidades de investimento para investidores estrangeiros.


Tomando a Comunidade Europeia como exemplo, os países da América Latina estão no fim da fila de prioridades. Bem à frente na escala de prioridades estão os demais países europeus que não fazem parte da Comunidade Europeia, incluindo os do Leste Europeu, que se tornaram oportunidades atrativas para o capital internacional. Além disso, economias do Mediterrâneo europeu, Oriente Médio, Norte da África, ex-colônias conhecidas como países ACP (África, Caribe e Pacífico), Estados Unidos, Japão e os NICS (Coréia, Taiwan, Cingapura etc.) estão à frente da América Latina na lista de prioridades de investimento.


Atualmente, empresários e burocratas de países desenvolvidos nem sequer tentam disfarçar quando nos afirmam que os latino-americanos estão sendo e continuarão sendo ignorados do ponto de vista comercial pelas nações industrializadas. A mensagem principal é que enquanto não formos capazes de organizar nossas sociedades, estabilizar nossas economias, fortalecer nossas democracias, modernizar e aumentar a eficiência de nossas indústrias, não deveríamos buscar qualquer apoio ou relacionamento econômico no mundo desenvolvido. Ao mesmo tempo, de forma simplista e até hipócrita, ainda somos acusados de depredadores da natureza, comprometendo a sobrevivência da humanidade.


A primeira reação é de repúdio a essas afirmações. Em seguida, começamos a refletir sobre até que ponto esses críticos implacáveis podem estar certos em muitos dos pontos que levantam. Perguntamos a nós mesmos até que ponto os brasileiros estão realmente ajudando na tarefa de reconstruir a democracia, aumentar a eficiência e buscar maior estabilidade.


Para superar esses obstáculos, é crucial aprender que o Brasil não é mais uma oportunidade desejável para investimentos ou comércio. As alternativas disponíveis para o capital internacional são numerosas e crescentes, como demonstram os recentes acontecimentos no mundo socialista. Precisamos nos destacar e competir ativamente para atrair novos parceiros comerciais e sócios na produção.


Rejeitar nossos compromissos externos, praticar discriminação econômica, impor reservas de mercado e adotar políticas protecionistas são ideias que ainda têm espaço na mente e nas propostas de muitos governantes, acadêmicos e burocratas. Essas políticas podem gerar benefícios imediatos de curto prazo, mas é preciso entender que elas também causam perdas significativas de competitividade para o país em relação a outras regiões do mundo. Estrategicamente, colocam o Brasil em uma posição competitiva frágil, impedindo que se integre plenamente às economias modernas.


Não podemos mais tolerar que continuem nos chamando de "América Latrina."


MARCOS CINTRA CAVALCANTI DE ALBUQUERQUE, 43 anos, é doutor pela Universidade de Harvard (EUA), diretor da Escola de Administração de Empresas da Fundação Getúlio Vargas e consultor econômico da Folha.


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