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  • Marcos Cintra - Folha de S.Paulo

Calma e moderação

O episódio da inflação de julho, que alcançou 24%, criou uma enorme comoção. Surgem as mais disparatadas previsões acerca da inflação dos próximos meses, desestabilizando ainda mais fortemente uma situação que já é bastante delicada. Neste clima de incerteza, angústia e falta de confiança, o presidente Sarney mais uma vez não corresponde à importância de seu cargo, faltando com o imprescindível apoio à equipe econômica de seu governo. E, ainda mais preocupante, começam a surgir propostas de todos os lados. Reduções, congelamentos, otimização, reformas monetárias e tudo mais.


Querem convencer o presidente a tentar mais uma vez fórmulas falidas, ao invés de criarem condições propícias para que a única estratégia de estabilização ainda não experimentada em toda sua plenitude surta seus primeiros efeitos - a estratégia da austeridade, a do "arroz com feijão". Ao invés de vir a público, e com redobrado rigor e determinação, garantir a continuidade e até o aprofundamento da atual política, o presidente se recolhe, permitindo o alastramento dos mais absurdos rumores acerca da política econômica.


A economia está como aquele doente que, embora não siga com rigor as recomendações prescritas, se impacienta com a demora de cura, perde confiança no tratamento médico e passa a se auto-medicar; toma sedativos que encobrem os verdadeiros males e passa a se benzer em vários terreiros.


A crise inflacionária vem acumulando novas forças desde o último trimestre do ano passado. Os leitores desta coluna devem recordar que, naquela ocasião, alertávamos sobre os efeitos das derrotas do então ministro da Fazenda Luiz Carlos Bresser Pereira em suas tentativas de impedir as exageradas recomposições salariais no setor público. Em dezembro, o ministro foi impedido de impor um ajuste fiscal, nem teve êxito em dar início a um efetivo processo de desestatização / privatização / reforma administrativa. Simultaneamente, também o setor privado passou a conceder reajustes salariais que, de certa forma, recriavam as condições que levaram à derrocada final do Plano Cruzado - uma demanda inconsistente com a capacidade de expansão de oferta. Nota-se, agora, que os empresários estão propondo novas recomposições de salários. Só resta esperar que não tentem repassá-los a preços, e que aceitem reduções em seus lucros.


Do ponto de vista conjuntural, a liberalização e privatização imediatas da economia seriam um fato fundamental de reversão de expectativas. Qualquer tentativa de aplicação de redutores será desastrosa. O câmbio ficará atrasado, neutralizando pela segunda vez o penoso ajuste externo já completado; o déficit público aumentará pela compressão das tarifas; e finalmente, o descasamento entre a inflação e a correção monetária será a senha para a perda de confiança quase-moeda (títulos públicos de giro diário), gerando uma corrida para ativos reais, e levando à hiperinflação. Considerando-se riscos e benefícios, seria melhor o congelamento total do que a aplicação do redutor - antes um placebo do que o risco de uma mistura altamente tóxica.


O ministro Mailson - embora sem penduricalhos heterodoxos - retomou as propostas de política econômica interna de Bresser. Iniciou o ajuste fiscal pela contenção de gastos; inicia agora uma maior contenção monetária. Ao que parece, contudo, terá de enfrentar dificuldades crescentes para iniciar um radical processo de enxugamento do setor público. Sufocá-lo com cortes indiscriminados de recursos - principalmente as estatais - retirando-lhes as condições de investir e aumentar a produtividade, não é o caminho para combater o déficit público. Possivelmente o agravará, a médio e longo prazos. O fundamental é que se reduza o âmbito das atividades públicas de forma cirúrgica, canalizando recursos para as atividades típicas do governo, hoje negligenciadas e focos de brutal ineficiência.


Finalmente, é hora de uma reavaliação crítica da indexação salarial. Há muito que a URP deveria ter sido extinta, pois está ficando cada vez mais claro que seus efeitos inflacionários são ainda mais potentes que o finado "gatilho". Não procede a afirmação de que isso prejudicaria os salários, pois as evidências mostram que a economia não está em recessão, e os salários médios não estão comprimidos. Não há mais motivo para esperar para tomar esta providência.


 

MARCOS CINTRA CAVALCANTI DE ALBUQUERQUE, 41, doutor pela Universidade de Harvard (EUA), diretor da Fundação Getulio Vargas e consultor econômico desta Folha.

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