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  • Marcos Cintra

Comodismo e popularidade

O governo está pagando caro por não ter aproveitado os anos de crescimento econômico e inflação baixa para fazer as reformas tributárias e políticas. Quando tudo caminhava bem na área econômica, seria o momento para começar a tocar adiante novas rodadas de mudanças essenciais para o desenvolvimento do país, mas o encantamento pelos elevados índices de popularidade falou mais alto, e nada foi feito. A impressão é que o governo acreditou que tudo caminharia de vento em popa a partir de então.


Entre 2003 e 2010, a economia brasileira cresceu em média 4% ao ano, a inflação manteve-se sob controle, o desemprego caiu pela metade, e o consumo das famílias cresceu e sustentou a produção em patamar elevado. Na área externa, a forte demanda chinesa valorizou produtos importantes na pauta de exportações do país, como soja e minério de ferro, e ajudou a manter a economia em ritmo forte.


A partir de 2011, a atividade econômica começou a se deteriorar. O crescimento médio caiu para menos de 2%, a inflação acelerou e vem se mantendo muito próxima do teto da meta, e os índices de confiança do consumidor vêm caindo por conta dos preços mais altos. O desemprego ainda se mantém reduzido muito em função das desonerações tributárias dos últimos anos, mas já há indícios de que o mercado de trabalho vai começar a se deteriorar, situação que já se observa nas contas externas por conta, em parte, do menor ritmo de crescimento chinês.


A forte queda de popularidade da presidente Dilma Rousseff em tão pouco tempo caiu como uma bomba no PT. Boa parte dessa queda se deve à recente onda de manifestações, que teve como um dos itens o repúdio à corrupção. Porém, há uma dose crescente de insatisfação resultante do quadro ruim da economia. A avaliação negativa certamente crescerá se o desemprego aumentar. Esse risco existe, uma vez que o arsenal de desoneração tributária se esgotou.


O governo vem tentando reagir à queda de popularidade com medidas de caráter meramente marqueteiro. Divulgou planos mirabolantes que contemplam bilhões de reais como se dinheiro pudesse ser apanhado em árvores. Governar virou uma emergência depois que a credibilidade da presidente começou a se esfarelar. A falta de uma visão estratégica quando a economia ia bem está custando caro para o governo. A insatisfação da sociedade vai se manter por algum tempo e colocar em risco as eleições para o PT no próximo ano. Mudar os rumos da política econômica agora pode criar prejuízos políticos ainda maiores.


Se tivesse feito uma reforma política, que se arrasta há quinze anos no Congresso, tendo como diretrizes dar fim aos políticos profissionais e desmantelar as organizações criminosas incrustadas no governo, a endemia da corrupção poderia começar a ser combatida no país. Por sua vez, se tivesse feito uma reforma tributária nos moldes do imposto único, projeto parado há onze anos na Câmara dos Deputados, a economia estaria crescendo de modo sustentado, com inflação reduzida e contas externas sob controle.


O momento atual serve de lição. Reformas fundamentais foram empurradas com a barriga durante a bonança econômica entre 2003 e 2010. O comodismo da atual gestão foi um erro crasso.

 

Publicado na Revista AMais: Setembro de 2013

Publicado no Sinicesp: Agosto de 2013

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