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  • Marcos Cintra

Escassez de profissionais

Uma grande empresa de recursos humanos entrevistou 40 mil empregadores em 39 países e apurou que um em cada três deles tem dificuldade para encontrar trabalhadores qualificados para os cargos oferecidos. O Japão é o país com o maior índice de queixa, 80%, e a Índia, com 67%, vem em segundo lugar. Com 57%, o Brasil é o terceiro do ranking e tem como profissões mais escassas técnicos, engenheiros, motoristas, operários, operadores de produção, representantes de vendas, secretárias e assistentes administrativos, mecânicos, contadores e profissionais de finanças.


Com a economia brasileira aquecida, há uma forte demanda por profissionais qualificados no país, mas as empresas não conseguem preencher essas vagas porque durante anos a educação de qualidade foi negligenciada e o ensino técnico foi desvalorizado. Para suprir essa deficiência, muitas empresas empregam trabalhadores estrangeiros, mesmo havendo mão de obra desempregada no mercado interno.


Dados do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) revelam que em apenas quatro anos a mão de obra originária de outros países cresceu 54%. As autorizações saltaram de 25.440 em 2006 para 39.057 em 2010. Chama a atenção nesse período o crescimento de 76% no número de trabalhadores com segundo grau completo ou formação técnica, que somaram no ano passado 15.144 indivíduos.


Por outro lado, o IBGE revela que 60% dos 1,5 milhão de desempregados nas regiões metropolitanas do país têm mais de onze anos de estudo. Ou seja, há um grande contingente de pessoas procurando emprego no Brasil que tem o mesmo nível de escolaridade de quase 40% da mão de obra importada em 2010.


Parte da mão de obra que vem para o país refere-se a profissionais especializados na supervisão de processos de transferência de tecnologia de ponta, mas o crescimento da importação de trabalhadores, sobretudo de pessoas com segundo grau ou formação técnica, deve ser inserido em um contexto onde fica evidente que o sistema educacional e de capacitação do profissional brasileiro não reage em sintonia com as necessidades da atividade produtiva.


É preciso repensar a qualificação do trabalhador brasileiro em todos os seus níveis, de tal forma que ela se torne uma política pública com ações de curto, médio e longo prazos e integre governo, empresas, entidades de classe e universidades. Um dos componentes dessa política deve ser a vinculação dos programas de transferência de renda à participação de seus beneficiários em cursos de capacitação profissional. Transferir renda sem exigir uma contrapartida dos beneficiários de ações como, por exemplo, o seguro desemprego ou o Bolsa Família, desestimula a inserção de pessoas no mercado de trabalho. Enquanto recebem o benefício, muitos indivíduos não têm interesse em cursos de capacitação porque temem perdê-lo.


Criar uma política nacional de qualificação do trabalhador, tendo como um de seus pilares básicos a vinculação dos programas de transferência de renda à participação de desempregados em cursos de qualificação profissional, seria uma forma de elevar a capacidade produtiva da mão de obra nacional. Essa ação teria um efeito multiplicador na economia por conta do aumento da produtividade do fator trabalho. Além disso, elevaria a renda do trabalhador e minimizaria os impactos sociais negativos gerados pelo desemprego e pela baixa capacitação laboral de uma grande massa de brasileiros.


 

Marcos Cintra é doutor em Economia pela Universidade Harvard (EUA), professor titular e vice-presidente da Fundação Getulio Vargas.

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