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  • Marcos Cintra

O inferno são os outros

A economia brasileira vive uma situação de baixo crescimento e inflação alta. Além disso, enfrenta enorme dificuldade em competir com o resto do mundo. Tal cenário foi gerado por falhas na condução da política econômica e pela carência de uma estratégia de desenvolvimento de longo prazo. Isso, sem falar nos efeitos deletérios causados por uma governança pública pautada por interesses político-partidários e pelos posicionamentos baseados em ideologias toscas e ultrapassadas. A combinação de tudo isso gerou o atual quadro de desalento e preocupação.


O Brasil teve um período de crescimento forte entre 2004 e 2008 em decorrência de estímulos ao consumo das famílias. A produção se expandiu com a incorporação de trabalhadores ao processo produtivo, e a inflação permaneceu em um nível relativamente baixo e sob controle. Cumpre lembrar que isso só foi possível por conta de políticas de estabilização deflagradas no início da década de 90, destacando o papel do Plano Real nesse processo. Tudo ficou no jeito para fazer a economia crescer, com aumento do crédito para habitação e veículos, por exemplo. Além disso, vale dizer que os bons ares vindos do exterior tiveram peso importante para o crescimento.


De 2009 em diante, tudo mudou. O PIB desacelerou, e os preços começaram a subir. O governo coloca a culpa na economia internacional, que cresce pouco, e nos analistas de mercado, que tentam mostrar a realidade das coisas. Ou seja, tenta jogar a responsabilidade de seus erros para o resto do mundo, que não estaria ajudando o Brasil, e clama aos empresários para que eles não acreditem nas "profecias pessimistas" dos especialistas.


O fato é que, mesmo com a crise global que ainda castiga os países ricos, a expectativa de crescimento para as economias em desenvolvimento, como o Brasil, deve ser da ordem de 5% ao ano entre 2014 e 2016, conforme divulgado recentemente pelo Banco Mundial. Já o PIB brasileiro deve crescer abaixo de 1% este ano e não acima de 2% nos próximos dois anos. Em relação aos analistas que alertam seus clientes quanto aos problemas da economia brasileira, a situação é absurda e ridícula. O presidente do PT, Rui Falcão, chegou a chamar um deles de terrorista porque expôs as fragilidades da economia do país, e a cúpula do partido ameaçou processar o banco onde o tal "terrorista" trabalha.


A situação brasileira hoje mostra o seguinte: a produção das montadoras de veículos cai sem parar, a construção civil vem acumulando estoques porque a demanda está enfraquecendo, as vendas do comércio varejista estão em queda, e o número de vagas de emprego é decrescente. Os analistas econômicos estão cumprindo seus deveres quando mostram a realidade como ela é e ao projetarem que em 2015 serão necessários ajustes severos na política econômica para o país entrar nos eixos novamente. Mesmo com a evidente deterioração da economia, o governo insiste em dizer que está tudo bem. Isso preocupa os agentes econômicos e gera insegurança no mercado. A atual gestão age de modo tosco quando agride quem mostra a realidade do país. O governo tenta passar para a sociedade que o inferno são os outros, quando na verdade o ambiente ruim foi criado por seus próprios erros e ineficiências.


Publicado na Revista AMais: Setembro de 2014

Publicado na Revista Siderurgia Brasil: Setembro de 2014

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