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  • Marcos Cintra

Os espinhos do Real

Na ausência das reformas estruturais que deveriam precedê-lo, o Plano Real já apresenta focos de tensão que pedem urgente e cuidadosa administração.


Há inquietação na área salarial. Fala-se em correção dos salários em torno de 11%, magnitude incompatível com uma moeda estável. Concedidos sem repasses, não se sabe o que acontecerá com a demanda agregada, cuja expansão já preocupa. Apesar da existência da capacidade ociosa generalizada, poderão aparecer gargalos setoriais. Como evitar efeitos inflacionários?


Outro ponto de apreensão está na esfera cambial. Ao abraçar uma política centrada no controle da expansão monetária, o Banco Central deixou de ter condições de manter a cotação interna do dólar. O governo deveria comprar divisas e expandir a base para impedir a valorização do Real. Como optou por não intervir, a consequência está sendo dramática. Defasagens cambiais comprometerão a competitividade dos produtos da pauta de exportações, as quais ainda exibem resultados superavitários graças a contratos de câmbio fechados antes do plano.


Ademais, observa-se que a movimentação cambial financeira - mais ágil - caiu. O saldo médio diário positivo em US$ 13,5 milhões, em junho, tornou-se negativo em US$ 26,8 milhões em julho. Deve permanecer negativo em agosto. O fato de a expansão monetária já ter atingido, neste mês, o limite legal de US$ 9 bilhões, estabelecido para até 30 de setembro, torna o conflito mais grave - o governo não pode mais administrar o câmbio sem romper as metas monetárias. Para abrandar a crise cambial, restam medidas acessórias, como inspeções fiscais, já que deflação seria um remédio por demais amargo em ano eleitoral.


Verifica-se, pois, que o Plano Real já enfrenta sérios desafios. Tudo porque nada mudou na base da economia, além da coordenação dos preços pela URV e da troca da moeda. Apenas eliminou-se o componente inercial da inflação. Porém, na ausência das reformas estruturais, suas causas autônomas permanecem. Assim, fica difícil a sociedade entender que o plano representa uma efetiva e duradoura mudança no regime fiscal e monetário.



Jornal da Região (Rio Claro - SP)

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