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  • Marcos Cintra

Os riscos do 'choque verão'

Com base nas informações publicadas pela Folha em sua edição de ontem, o "choque verão" revela problemas altamente preocupantes. Um plano de choque que incorpore políticas de renda (congelamentos, prefixações, tabelamentos, etc.) exige um enorme apoio de todos os segmentos da sociedade. Para que isso ocorra, o governo não pode deixar de inspirar confiança. Poucos acreditam que o governo Sarney tenha conquistado esse apoio. Pelo contrário, ele frustra a sociedade ao propor uma reforma ministerial tímida, quase sem sentido, ao mexer apenas nos novos e pequenos ministérios que seu próprio governo criou. Além disso, não avança no programa de privatização, uma forma poderosa de combater o déficit público e redimensionar o tamanho do Estado na economia.


Ao mesmo tempo, o presidente Sarney acumula derrotas, como o ridículo pacto social. Isso suscita forte oposição dos trabalhadores ao eliminar a URP (Unidade de Referência de Preços) sem oferecer qualquer política alternativa capaz de merecer o apoio dos assalariados. Apenas remete a questão para discussões posteriores. Uma improvisação lamentável diante da gravidade da situação.


Quanto aos empresários, ele os brinda com punições por crimes de "delinquência econômica". É inacreditável que os responsáveis pela economia do país tenham tido a coragem de elaborar uma peça legislativa com características de um atraso medieval.


Em resumo, o governo não conta com apoio e credibilidade para implementar o "choque verão".


A defesa do congelamento


Uma política de renda, para ser eficaz e evitar a recessão, precisa ser precedida por medidas fortes de contenção fiscal e monetária. Os ministros econômicos iniciaram essa preparação quando anunciaram que obteriam, a qualquer custo, o equilíbrio orçamentário. Com isso, criariam condições para aplicar uma política monetária restritiva.


Mais uma vez, no entanto, as esperanças são frustradas. Os dados referentes a dezembro do ano passado mostram que o déficit de caixa do Tesouro - que deverá atingir 5% do PIB em 1988 - pressionou a base e provocou uma expansão monetária de 51,7% apenas em dezembro. Também nesta questão, o governo demonstra que não foi capaz de efetuar o ajuste necessário, sem o qual uma política de renda encontrará inevitavelmente o fracasso.


Desindexação prematura


Não há como acabar com a indexação sem eliminar a inflação. Confunde-se causa e efeito quando se preconiza acabar com a correção monetária para eliminar as pressões de aumento de preços. O ex-ministro Bulhões diz que a eliminação da correção monetária implica atacar a causa e o efeito ao mesmo tempo. No entanto, não havendo uma firme expectativa de que a inflação esteja sob controle - como de fato não está - os agentes econômicos se reindexarão novamente, formal ou informalmente.


O "choque verão" aparentemente reconhece isso. Ele permitirá o uso de indexadores alternativos. Novas formas de indexação salarial serão discutidas na próxima reunião do pacto. Contratos terão cláusulas de correção específicas.


Em suma, o "choque verão" acaba com a correção monetária, mas não desindexa a economia, principalmente porque não conseguiria. Ele fica com o pior dos dois mundos: múltiplos indexadores, o melhor caminho para desestabilizar os fluxos financeiros e de investimentos.


A assimetria fatal


É necessário manter taxas de juros reais elevadas. As expectativas em relação ao sucesso do "choque verão" não são favoráveis, e, portanto, apenas a atração de ganhos exorbitantes no curto prazo será capaz de evitar uma fuga em direção a ativos reais. Os juros reais da caderneta de poupança são baixos em comparação com os que se pretende impor no mercado financeiro. No entanto, aumentar os juros da poupança desequilibra a relação entre ativos e passivos das sociedades de crédito imobiliário. Está armada a confusão.


Qualquer movimento desestabilizador dos fluxos financeiros não poderá ser corrigido, não terá retorno e desembocará na hiperinflação. Nessas circunstâncias, eliminar a correção monetária por força é tirar a única rede de segurança contra o repúdio da moeda. Se for confirmado, é de esperar que o governo tenha feito uma criteriosa avaliação de risco.


Só há uma forma de não ser pessimista: esperar que o "choque verão" não seja o que vem sendo divulgado.


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