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  • Marcos Cintra

Reflexões sobre a China

O governo chinês tem atuado com muita habilidade e destreza na condução do país. É uma nação que mantém a tendência política autoritária dentro das estruturas econômicas do capitalismo moderno. Em geral, a globalização nas economias democráticas tende a limitar as ações sobre os instrumentos de política econômica voltados para o mercado interno, mas os comunistas instalaram um modelo de gestão que tem conseguido contornar essas limitações.


A partir do final dos anos 70, o governo chinês começou a abrir o país ao mercado externo e flexibilizou o rígido controle estatal sobre atividades agrícolas e a indústria de pequeno porte, introduzindo métodos de gestão privada. Desde então, a economia chinesa opera com uma combinação entre um relativo relaxamento do dirigismo do Estado e a manutenção de forte controle do Partido Comunista em relação aos fundamentos da atividade produtiva e sobre grandes empresas industriais e o setor financeiro.


Grande parte do êxito da economia chinesa se deve ao manejo estatal da política comercial com o resto do mundo. As orientações que regem as relações econômicas internacionais chinesas estimulam o comércio internacional, tendo como meta a expansão das exportações em um ritmo maior que as importações e a forte atração de investimentos diretos do exterior. O governo administra o câmbio e controla a retenção de divisas, gerando, com isso, saldos comerciais crescentes. Com essa estratégia, a China acumula reservas cambiais que ultrapassam US$ 2,1 trilhões.


Os investimentos diretos (US$ 108,3 bilhões em 2008) e os das estatais chinesas, bancados em boa parte pelas reservas externas, impulsionam o prolongado crescimento da economia chinesa, que, combinado com um mercado com mais de 1,3 bilhão de consumidores, cria oportunidades para investidores de todas as nacionalidades ao redor do mundo. Hoje, o país se tornou um eldorado para empreendedores de todas as nacionalidades.


Para se ter uma ideia do desempenho da China no âmbito comercial, vale citar que em 1997 o país exportou US$ 24,5 bilhões (16º no ranking dos maiores exportadores) e em 2002 o valor já estava em US$ 325 bilhões (5º no ranking). Em apenas cinco anos, a economia chinesa multiplicou por mais de 13 vezes suas vendas externas, enquanto que, no mesmo período, o total das exportações mundiais saltou de US$ 5,5 trilhões para US$ 6,3 trilhões. Nos seis primeiros meses de 2009, as vendas chinesas já somaram US$ 521,7 bilhões, e o país chegou ao topo dos maiores exportadores do mundo, superando a Alemanha.


A situação não é diferente no que tange às importações. O país deve continuar crescendo na casa de 8% ao ano, como prevê o FMI para 2009, e com 1,3 bilhão de consumidores, renda per capita com grande potencial de crescimento (ainda é de um terço da média mundial) e elevado volume de recursos para investimentos, a tendência é que o país mantenha ou atinja o status de maior importador de produtos como metais, carnes, veículos e outros.


A China se tornou a locomotiva da economia mundial e deve se manter nessa condição nos próximos anos. O país já se tornou o principal parceiro comercial do Brasil, mas dada a magnitude da economia chinesa e as projeções de crescimento para o país, há ainda muito a ser conquistado pelas empresas brasileiras naquele mercado.


Nos últimos dois anos, as commodities brasileiras tiveram na China o principal mercado consumidor, e elas devem continuar liderando as vendas nacionais para aquele país. Dentre os dez principais produtos exportados pelo Brasil para a China, nove são commodities, com destaque para minério de ferro e soja.


A perspectiva de crescimento para a economia chinesa nos próximos anos cria oportunidades em todos os segmentos brasileiros. São economias complementares. O Brasil possui vantagens comparativas em setores como agropecuária e mineração, e a China vai se tornar o maior importador mundial de alimentos e matérias-primas em breve. As empresas brasileiras devem adotar estratégias voltadas à exploração desse mercado, uma vez que ele irá gerar ganhos econômicos aos seus participantes.


A grande dúvida quanto à prosperidade chinesa refere-se à sustentabilidade desse processo. O totalitarismo do governo comunista elimina seus adversários e reprime manifestações políticas, mas, a longo prazo, o país pode enfrentar turbulências que vão impactar a economia negativamente. Os trabalhadores poderão reivindicar salários mais altos e melhor qualidade de serviços públicos. Isso neutralizará parte das vantagens competitivas do país nos mercados internacionais, mas o que as empresas precisam fazer neste momento é marcar presença numa economia que despertou e se transformou na mais promissora do mundo.

 

(*) Marcos Cintra é doutor em Economia pela Universidade Harvard (EUA), professor titular e vice-presidente da Fundação Getulio Vargas.

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