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  • Marcos Cintra

Todo cuidado é pouco na agricultura

Marcos Cintra Cavalcanti de Albuquerque


De quase todos os ângulos de observação, as perspectivas econômicas para o ano de 1987 apresentam-se sombrias. A inflação mostra uma dramática tendência de alta, os investimentos públicos e privados relutam em se concretizar, o desempenho comercial externo do país está debilitado, e começam a surgir claros sintomas que, se não forem monitorados com extremo zelo pelas autoridades, poderão configurar um quadro altamente contracionista, até mesmo recessivo.


Há, contudo, alguns motivos para uma visão menos pessimista. Um deles é a expectativa, segundo as previsões do IBGE, de que a agricultura crescerá no mínimo 8,3% em 1987. Considerando-se que devido à seca no final de 1985 a produção agropecuária em 1986 sofreu um recuo de cerca de 8/12% negativos para a agricultura e aproximadamente 7% negativos para a pecuária, pode parecer que o acréscimo de produção previsto para 1987 não seja significativo. Contudo, caso não ocorram condições climáticas adversas, é possível que a produção nacional de grãos supere o recorde obtido na safra 1984/85 que foi de 58 milhões de toneladas. Apesar das imensas dificuldades nos mercados de carne e de leite, viabilizou-se um clima positivo entre os agricultores, refletido nas estatísticas de intenções de plantio.


Em agosto último, por ocasião do anúncio do Plano de Metas, o governo estabeleceu as diretrizes de uma nova política agrícola. Estabeleceram-se regras de comercialização e programas de investimentos em transporte e armazenamento. Mas o que realmente causou impacto favorável junto aos produtores rurais foi a política de preços mínimos plurianuais, pela qual os preços de garantia serão corrigidos automaticamente, de acordo com a evolução dos custos. Criou-se também o Fundo de Desenvolvimento Rural e a Caderneta de Poupança Verde.


Esta bateria de medidas, além, evidentemente, das novas regras de crédito rural que, com o Cruzado, eliminaram a correção monetária - não foi, em sua quase totalidade, posta em execução, mas foi suficiente para demonstrar a prioridade que seria concedida ao setor agropecuário. Contudo, se não forem implementadas rapidamente, não haverá razão para esperar que as expectativas favoráveis quanto ao desempenho agrícola sejam mantidas no futuro.


Agora que as previsões quanto à inflação acham-se exacerbadas e que paulatinamente retornam as regras de indexação vigentes antes do Plano Cruzado, o governo deve concentrar esforços para concretizar uma política de produção de alimentos e matérias-primas capaz de impedir choques de oferta. As previsões indicam que o setor agrícola não apresentará maiores problemas. Entretanto, todo cuidado é pouco para evitar que também o desempenho da agricultura confirme os insucessos acumulados pelo governo em outras áreas.


 


MARCOS C. CAVALCANTI DE ALBUQUERQUE é doutor em Economia pela Universidade de Harvard, professor da FGV/SP e Consultor de Economia desta Folha.

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