Plano ameaçado

 

  1. Para que um programa anti-inflacionário logre sucesso, é preciso convencer os agentes econômicos de que as causas estruturais do fenômeno inflacionário acham se sob controle. É a maneira mais eficiente de reverter as expectativas altistas nos preços, e evitar que o mercado aposte no retorno da espiral inflacionária.

  2. Mesmo que sejam adotadas medidas positivas no combate à inflação, é possível que não sejam interpretadas como o início de um novo regime de política fiscal e monetária. Podem ser consideradas apenas como providências temporárias e de curto prazo, incapazes de ir à raiz do problema. Nestes casos, antes mesmo que a eficácia destes instrumentos de política econômica possa ser notada, as expectativas de inflação crescente acabam prevalece, colocando em xeque o programa de estabilização.

  3. É neste ponto que o Plano Verão vem encontrando suas maiores dificuldades. A estratégia do governo previa, corretamente, que para de fender o congelamento de preços as taxas de juros reais teriam de ser mantidas em patamares bastante   elevados. Seria a forma de evitar a corrida contra a moeda, a fuga para   ativos reais, a estocagem especulativa e a exacerbação do consumo por parte de compradores ávidos em antecipar compras por conta de uma estabilidade de preços que não consideram duradoura.

  4. Mas os formuladores do Plano espaço, mas a parte fiscal do programa não está surtindo os efeitos esperados.

  5. Mesmo assim, os juros não   podem ser mantidos elevados por muito tempo. Os planos do governo previam que as taxas pudessem iniciar uma trajetória de queda   algumas semanas após o início   do congelamento. Mas para que isto seja possível, é necessário que o choque fiscal seja interpretado pelos agentes econômicos como o início do controle efetivo das causas estruturais dos desequilíbrios orçamentários do setor público.

  6. Infelizmente, este cenário de política fiscal e monetária não se concretizou. Os juros foram para o espaço, mas a parte fiscal do programa não está surtindo os efeitos esperados.

  7. A taxa de juros é o termômetro do Plano Verão. Sua elevação, como vem ocorrendo nos últimos 30 dias, mostra que o governo identifica ressoes compradoras nos mercados e ativos reais. Para neutralizá-las, eleva os juros, o que implica aumentar o custo de oportunidade destas transações. Esta medida contribui também para impedir que os efeitos do descrédito no Plano se transformem em excesso de demanda e em desabastecimento nos mercados consumidores. Assim, ao puxar os juros de 25% para 30% desde o início do Plano Verão, o governo passa recibo —o choque não vai bem.

  8. O governo está numa autêntica arapuca. Juros altos inviabilizarão o ajuste fiscal; juro cadentes, por outro lado, significa abandonar o "choque verão" à sua própria sorte.

  9. Só há uma maneira deste programa anti-inflacionário não sucumbir: fazer uma reforma estrutural do setor público visando o redimensionamento do tamanho do Estado na economia, o enxugamento do aparelho burocrático e um amplo processo de privatização capaz de executar o ajustamento patrimonial do setor estatal. Sem estas providências estruturais o déficit público não será contido. Pequenas mágicas e artifícios —como as que resultaram nos "bons" resultados de caixa do Tesouro em janeiro último — não serão suficientes para dar ao "choque verão" a credibilidade que ele precisa para ter êxito.

  10. A gravidade do quadro econômico anterior ao lançamento do Plano Verão faz com que este programa anti-inflacionário se revista de características peculiares. As expectativas acham-se exacerbadas as frustrações dos dois últimos planos, e qualquer sinal de fracasso poderá iniciar uma corrida contra o Novo Cruzado. 

  11. A economia perdeu uma de suas âncoras com a extinção da correção monetária, que cumpria o papel de indexador universal. Ademais, os preços relativos acham-se desajustados, em parte pela atabalhoada entrada no congelamento. Nestas condições, se o Plano Verão não obtiver êxito, o descongelamento poderá ser incomparavelmente mais traumatizante do que a dos planos anteriores.

  12. Paradoxalmente, a hiperinflação pode estar hoje mais próxima do que esteve 30 dias atrás.

 

 

 

MARCOS CINTRA CAVALCANTI DE ALBUQUERQUE.  É doutor pela Universidade de Harvard (EUA), professor da Escola de Administração de Empresas da Fundação Getúlio Vargas.

 

 

 

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