Resíduo de ineficiência

  Alarmante a constatação de que os preços em dólares dos automóveis produzidos no Brasil dobraram entre 1984 e 1992, segundo dados divulgados pelo jornal "Gazeta Mercantil". Enquanto a dinâmica empresarial em todo o mundo desenvolvido aponta para um ciclo de vida dos produtos que tende a baratear os preços ao consumidor, aqui os automóveis tornam-se autênticos artigos de luxo. Não surpreende, portanto, que os carros importados passem a rodar em nossas cidades com crescente intensidade.          

 

  Enquanto isso, uma indústria   que, pelo seu período de vida e pela dimensão do mercado brasileiro já deveria estar atingindo plena maturidade, mostra-se pouco competitiva e com índices de produção e de produtividade cadentes.

 

  Há explicações para esses fatos. Como corretamente as montadoras logo apontaram, houve no período uma inflação em dólar de   cerca de 30%; a sanha fiscal do setor público brasileiro aumentou a tributação sobre veículos em aproximadamente 8,5%, por conta de ônus adicionais vinculados ao ICMS, IPI, Finsocial e PIS; O cruzeiro se valorizou, e houve melhoria de qualidade no produto. Mesmo assim, ainda permanece um resíduo de ineficiência que, segundo o modelo, pode variar de 5% a 25% de aumento de preços.

 

  O resíduo de ineficiência da indústria automobilística brasileira provavelmente não teria existido caso a economia nacional tivesse prosseguido em trajetória de crescimento. A queda na produção onera fortemente os custos fixos unitários de produção e impede o aproveitamento de economias de escala que caracterizam os setores industriais mais avançados.

 

  Além disso, a política econômica brasileira, ao permitir —mediante a contenção do crescimento e as várias moratórias de seus compromissos externos— que o cruzeiro se valorizasse estaticamente em 50% no período, também contribuiu fortemente para a perda de competitividade da indústria automobilística nacional.

 

  Enquanto isso, os competidores externos buscam novos mercados, aumentam produtividade, modernizam seus métodos administrativos e inovam seus produtos.

 

Marcos Cintra Cavalcanti de Albuquerque, doutor em Economia pela Universidade de
 Harvard (EUA).


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