O Real na corda bamba

  Os comerciantes estão prevendo um Natal festivo. As previsões de vendas indicam mais de 30% sobre 93.

  No Brasil, infelizmente, notícias como esta, ao invés de serem comemoradas, acabam trazendo apreensões.

  Já há excesso de demanda em vários mercados. A capacidade instalada do parque industrial brasileiro dá sinais de esgotamento. Resultado: apesar da política contencionista do governo, fatores de demanda começam a pressionar preços em importantes setores da economia.

  Pelo ângulo dos custos, as notícias também não são alvissareiras. A elevação dos preços internacionais das commodities já contaminaram vários segmentos da matriz de insumos industriais. Ainda mais preocupantes são as correções salariais. Em dezembro, entre 20% e 26%. Não há como imaginar gordura ou de ganhos de produtividade nestas proporções.

  Não bastasse isto, o governo anuncia que pretende aumentar a arrecadação de impostos dos atuais 25% do PIB para 30%. Um aumento de 20% da atual carga tributária. Com o fim do IPMF –que aliás, é o imposto que vem sustentando a recuperação da receita federal–, o governo anuncia que pode tributar os ativos das empresas. É fácil prever que haverá tentativas de repasses a preços.

  Como moldura neste quadro nota-se que a política monetária tornou-se passiva, fenômeno que nem mesmo a alteração no agregado monetário de controle consegue ocultar. O equilíbrio fiscal é precário, prevendo-se déficit de caixa de US$ 10 bilhões no orçamento federal para 1995. Situação igualmente grave é verificada nas finanças dos Estados, dos municípios e da previdência.

  Mais frustrante ainda é que as reformas estruturais, sem as quais o atual plano de estabilização não se sustentará, poderão ser morosas.

  Em outras palavras, não houve sinalização de mudança no regime fiscal e monetário brasileiro. Se as grandes reformas não forem sinalizadas e rapidamente concretizadas, o Plano Real poderá acabar sendo apenas uma mudança de base na série inflacionária brasileira.

MARCOS CINTRA, doutor em economia pela Universidade Harvard (EUA), e professor titular da Fundação Getulio Vargas.

 

 

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