Empréstimo desnecessário

  Para o Brasil, soa estranho emprestar US$ 300 milhões ao México. É preciso apresentar justificativas plausíveis, capazes de comprovar a legitimidade da operação.

  Teme-se que uma moratória mexicana possa repetir a crise de 1982, cujos efeitos repercutem até hoje. Neste sentido, soam razoáveis as alegações de que é necessário o Brasil participar da operação de salvamento para evitar nova crise. Mas as circunstâncias são outras.

  É ingenuidade crer que a comunidade financeira internacional não diferencie as economias latino-americanas umas das outras. Os investidores externos não investem individualmente. O fazem por meio de fundos equipados para saber identificar uma economia saudável. Se investem em economias frágeis, o fazem pela maior rentabilidade, conscientes dos riscos.

  O risco de a crise mexicana se estender ao Brasil é real apenas no caso de as nossas condições econômicas serem semelhantes às do México, o que não é o caso. O Brasil segue uma linha de política cambial semelhante. Isto nos conduziria, no futuro, aos mesmos impasses que o México enfrenta.

  Contudo, no Brasil, as distorções causadas por essa estratégia de estabilização ainda não assumiram as mesmas proporções. Temos respeitável nível de reservas. Nossa balança de pagamentos ainda não sofreu os abalos da política de valorização do real. Há tempo para correção de rumos.

  Além disso, o empréstimo é de valor simbólico como operação de salvamento. Estrategicamente, facilitaria ao presidente Clinton obter apoio do Congresso para aprovar a ajuda de US$ 40 bilhões ao México.

  No entanto, Clinton costurou outra solução para o problema. Assim, a ajuda brasileira é desnecessária, além de inoportuna para um país com recursos escassos e problemas sociais de extrema gravidade.

  O fundamental é ajustar a política econômica e evidenciar que o Brasil não está em rota de desastre. Além de sinalizar aos investidores as características mais sólidas da nossa economia, ainda se poderia aumentar nosso poder competitivo para absorver os investimentos que saem do México.

 

 

 

Marcos Cintra Cavalcanti de Albuquerque, doutor em Economia pela Universidade
 de Harvard (EUA).

 

 

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