A perigosa síndrome da estagnação

  Nos últimos dez anos, o mundo experimentou mais estabilidade e menos inflação. Isso ocorreu até mesmo nos países conhecidos anteriormente por seus crônicos processos hiperinflacionários e por suas gestões fiscais temerárias. Nações latino-americanas tornaram-se orçamentariamente mais responsáveis, combatendo com eficácia seus déficits fiscais primários. Países como o Brasil, a Colômbia, o Chile, a Argentina, o Uruguai e o México, que registravam, em meados dos anos 90, inflação anual em torno de 20% e crescimento econômico de 6%, passaram a conviver com inflação de 7% e PIB oscilando negativamente em torno de 1%.
 
  Também os "tigres asiáticos", antes ágeis e dinâmicos, tornaram-se mais conservadores. A Tailândia, a Coréia do Sul e a Malásia, que em meados dos anos 90 registravam inflação em torno de 5% e PIB crescendo 9% ao ano, passaram a contar com níveis de preços oscilando em torno de 1% e crescimento econômico menor, algo em torno de 7%.
 
  Em todo o mundo aumentou a estabilidade monetária e a inflação foi debelada. O conservadorismo fiscal e monetário tornou-se a regra dominante.
 
  Mas o preço foi a queda nas taxas de crescimento econômico. A expansão econômica tornou-se exceção ou diminuiu de ritmo. Ademais, surgiu uma generalizada e inexorável sensação de crescente injustiça, na medida em que a nova ordem econômica internacional passou a ser vista como benéfica para os países ricos, mas profundamente injusta e cruel para com as nações pobres. Acrescente-se ainda que os custos da estabilidade não foram distribuídos pelos vários estratos sociais e econômicos segundo critérios aceitáveis de equanimidade.
 
  Esta tem sido a regra do mundo globalizado: conservadorismo fiscal e monetário, mesmo que à custa do crescimento econômico e com riscos de profunda desorganização social.
 
  É contra isso que se insurgiram os manifestantes em Seattle, Davos, Québec e Gênova. Ainda que não exista clareza em relação às alternativas possíveis, os movimentos antiglobalização buscam denunciar os custos políticos, sociais e ambientais dessa política global inexorável, e cruel, ainda que de notória eficiência.
 
  No Brasil essa discussão passa por várias vertentes. A resistência contra a crescente globalização surge não apenas nos movimentos radicais de jovens irrequietos como também nos salões dos grandes conglomerados industriais e nos sóbrios corredores de suas associações de classe. Pela primeira vez nota-se que a unanimidade que uniu o país contra a inflação e pela estabilidade econômica, e que deu ao presidente FHC um segundo mandato presidencial, acha-se em processo de esfacelamento. O viés antiinflacionário não une mais os vários setores sociais e econômicos do país. Pelo contrário, os divide.
 
  A proximidade das negociações da Alca, as propostas da UE e os percalços do Mercosul proporcionam o surgimento de fraturas de opinião entre os vários setores de atividade e entre as classes funcionais no país. Surgem movimentos pela imposição de barreiras protecionistas para a produção nacional e de resistência à redução das que ainda persistem. Por outro lado, as perspectivas de integração nos inesgotáveis mercados mundiais atiçam a ambição dos produtores de bens para os quais o Brasil possui inequívocas vantagens comparativas, como os setores agroindustriais e de bens manufaturados tradicionais.
 
  Tudo isso representa um dilema para o Brasil, na medida em que as várias facções políticas e econômicas deixam de vislumbrar um projeto capaz de aglutinar interesses e de mobilizar esforços em prol de uma estratégia de desenvolvimento nacional.
 
  É nesse sentido que o PFL, por deliberação de sua Comissão Executiva Nacional, determinou a formação de uma comissão especial para elaborar sua proposta de governo para a próxima administração. As discussões ainda ocorrem internamente, mas, em 13 de junho, em reunião em São Paulo, o PFL tomou uma decisão fundamental: assumir um compromisso com o crescimento.

  De fato, a história brasileira já demonstrou à exaustão que durante os períodos de crescimento acelerado as tensões distributivas são atenuadas. Contrariamente, a instabilidade fiscal e monetária se exacerba durante os períodos de relativa estagnação. Esse diagnóstico aponta para a única alternativa viável e responsável para o nosso país: retomar o crescimento econômico, gerar empregos e renda, conquistar novos espaços no comércio internacional, organizar os mecanismos de geração de poupança, atrair recursos externos e voltar a investir na infra-estrutura doméstica, prioritariamente no capital humano, na educação e na tecnologia.
 
  O detalhamento e as implicações setoriais e regionais dessa definição ainda se encontram em discussão dentro do partido. Mas a decisão central está tomada. A meta do PFL é o crescimento.
Nesse ponto, cabe uma questão: essa orientação de política econômica compromete a continuidade da estabilidade monetária brasileira, conquistada a duras penas ao longo de mais de sete anos de sacrifícios?
 
  A resposta é negativa.
 
  O desenvolvimento econômico brasileiro passou por fases distintas e que, naturalmente, chegaram a seus limites. Em cada uma dessas fases históricas foram superados obstáculos existentes de forma sequencial, atingindo-se metas e objetivos estratégicos para o país. Assim foi com o estatismo desenvolvimentista da era Vargas, com o modelo cepalino autárquico/substitutivo de importações da era Kubitschek, com a internacionalização econômica e a consolidação da infra-estrutura física nacional, baseadas no tripé Estado/setor privado/capitais externos do período militar, e finalmente com a política saneadora e estabilizadora da nova era econômica global, do Plano Real.
 
  Cada etapa atingiu seu objetivo e meta estratégica e seu limite, impondo a necessidade de identificação de novos rumos e de novos paradigmas de política econômica para sucedê-las.
O Plano Real legou ao Brasil uma economia mais moderna, estável, organizada. A estabilidade é uma conquista que já foi incorporada aos valores da sociedade brasileira, ainda que há poucos anos, no auge da hiperinflação, fosse julgada inatingível.
 
  Em resumo, é chegado o momento de uma inversão de rumos. Não se trata de uma opção entre crescimento e estabilidade, mas do reconhecimento da necessidade de superação de uma fase histórica que atinge seu esgotamento. Mais do que nunca a consolidação do Real exige uma política econômica que propicie a retomada do crescimento e a superação da síndrome da estagnação.

MARCOS CINTRA, doutor em economia pela Universidade Harvard (EUA), professor titular e vice-presidente da
 Fundação Getulio Vargas.

 

 

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