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  • Marcos Cintra - Folha de S.Paulo

O fundo do poço

Os indicadores econômicos continuam mostrando uma tendência de desaquecimento da demanda. Os índices de desemprego vêm aumentando, e a atividade industrial mostra forte desaceleração. A economia parece tender a uma repetição dos níveis de 1985, superando assim a corcova produzida pelo Plano Cruzado durante 1986. A grande preocupação reside nos riscos de que o atual desaquecimento desemboque num cenário recessivo mais profundo, fugindo do controle das autoridades econômicas. Neste sentido, já se ouvem clamores por medidas mais expansionistas.


Embutida na atual política econômica, acham-se fatores que deverão gerar um movimento de recuperação a curto prazo. Se por um lado isto é desejável, no sentido de estimular o mercado interno, por outro é uma ameaça ponderável de ressurgimento de pressões inflacionárias.


Em primeiro lugar, a indexação dos salários à Unidade de Referência de Preços (URP) deverá compensar parcialmente —e mensalmente, é importante dizer— as perdas causadas pela inflação corrente. Acrescida dos resíduos deixados pelo gatilho, a reposição mensal dos salários deverá estancar a queda de poder aquisitivo ocorrida durante o período do congelamento. Salvo no caso de uma súbita aceleração inflacionária —e neste caso, a URP ficaria excessivamente defasada em relação à inflação corrente—, a atual política econômica deverá estancar a queda de salários reais, podendo até, em alguns casos, começar uma ligeira recuperação.


Em segundo lugar, percebe-se nas negociações salariais em curso, uma nítida tendência de plena reposição das perdas ocorridas nos doze meses anteriores às datas-base. Em alguns casos, pode-se antever acordos ainda mais favoráveis aos assalariados. A recolocação dos salários nos picos de doze meses atrás, ou até acima deles, acarretará sensível aumento dos salários médios reais relativamente aos vigentes desde o último dissídio.


Como lembrado no editorial de hoje da Folha, a indexação à URP impedirá que o salário médio acabe se fixando em patamares sensivelmente inferiores aos salários de pico (a não ser que a inflação cresça aceleradamente). Deste modo, durante os próximos meses, haverá um aumento considerável nos salários médios reais, com prováveis impactos na demanda interna.


Finalmente, haverá um efeito expansionista resultante da lenta queda nas taxas de juros reais operada pelas autoridades monetárias. O efeito imediato poderá advir de uma expansão na demanda por crédito ao consumidor.


Em resumo, as atuais perspectivas não são de aprofundamento do desaquecimento. A economia poderá estar, no momento, batendo no fundo do poço. De fato, a preocupação deveria ser exatamente no sentido inverso. Se o repique da demanda interna for excessivo, haverá um sério risco de que surjam novas pressões inflacionárias, que se somarão às já existentes. É um momento delicado. O governo precisa administrar preços de forma a reequilibrar custos e lucros em vários setores. Precisa também implementar, de forma efetiva, sua política fiscal, ainda em estado embrionário. E finalmente, necessita de diretrizes de política salarial para evitar que os resultados positivos já colhidos no tocante à inflação sejam rapidamente neutralizados por pressões de demanda.


 

MARCOS CINTRA CAVALCANTI DE ALBUQUERQUE, 41, é Doutor pela Universidade de Harvard (EUA), diretor da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getulio Vargas e consultor econômico desta Folha.


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