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  • Marcos Cintra - Folha de S.Paulo

Cepal versus tigres asiáticos (4/4)

O modelo de desenvolvimento adotado pelos países exportadores de manufaturados da área do Pacífico se transformou num novo paradigma de crescimento, contrapondo-se ao receituário da Cepal, que tanto influenciou os planejadores econômicos nas primeiras décadas do pós-guerra.


A Cepal preconizava a substituição de importações a qualquer custo, e a industrialização era vista como uma renovada esperança de prosperidade. Para atingir essas metas, justificava-se que as economias se voltassem para seus próprios mercados e que os novos setores produtivos fossem protegidos contra a concorrência externa por meio de barreiras comerciais. Ao mesmo tempo, devido às limitações de recursos financeiros e gerenciais de uma burguesia apenas incipiente, criaram-se as condições ideais para o surgimento de um Estado forte capaz de introduzir nessas economias atividades manufatureiras consideradas modernas e de realizar pesados investimentos em infraestrutura de apoio ao novo processo industrial. Nesse modelo, voltado para o mercado interno, o Estado assumiu o papel de agente econômico preponderante, desempenhando funções de produtor, fomentador e regulador da economia.


Inicialmente, coube ao governo a tarefa de gerar meios de financiamento para o esforço de industrialização, seja através de poupança própria, seja por meio da gestão de transferências de renda. Em uma segunda etapa, o processo continuou com empréstimos concedidos pelos bancos comerciais, que estavam interessados em reciclar seus petrodólares.


Esse modelo de desenvolvimento permitiu que os principais países latino-americanos atingissem um razoável grau de industrialização durante a década de 50. Após a substituição de bens de consumo importados, iniciou-se um processo mais desafiador de industrialização nas áreas de bens intermediários, bens de consumo duráveis e, mais recentemente, bens de capital e insumos básicos. As crescentes e naturais dificuldades desse processo exigiram desses países um modelo cada vez mais fechado, mais concentrado para permitir a obtenção de economias de escala e cada vez mais estatizado. Como resultado, essas economias emergiram na década de 80 com uma notável fragilidade em termos de competitividade internacional. A forte proteção concedida a elas gerou setores industriais pouco eficientes, pesadamente subsidiados e com pouco dinamismo tecnológico. Faltou a elas, essencialmente, o confronto com o mercado.


Com a crise da dívida externa, que eclodiu com violência em 1982, essas economias se viram forçadas a fazer fortes ajustes para continuar servindo sua dívida externa. E esses países, que seguiram as recomendações da Cepal, agora estão imersos em profundos processos recessivos.


Por outro lado, a partir do início da década de 70, surgiu uma nova ortodoxia, baseada na experiência dos "tigres asiáticos". A abertura da economia para o exterior, o respeito às regras do mercado livre e a ênfase na iniciativa privada foram os pilares desse novo modelo de desenvolvimento. O sucesso foi evidente em economias como Japão, Cingapura, Hong Kong, Taiwan e Coréia, que apresentaram nas últimas décadas taxas de crescimento substancialmente mais elevadas do que as economias latino-americanas e conseguiram rapidamente superar o PIB per capita daqueles que optaram pelo caminho do mercado interno.


É importante observar que alguns países, como o Brasil, adotaram estratégias mistas entre o modelo de substituição de importações e o modelo exportador. No entanto, é inegável que a intervenção pública não foi uma das diferenças mais perceptíveis entre os dois modelos de crescimento analisados aqui. Também é preciso reconhecer que, nos países do Pacífico, todas as medidas de política econômica passaram sempre pelo teste do mercado externo.


Que lições podemos tirar desta breve análise desses dois padrões de desenvolvimento?


É notável que a fase de substituição de importações, com maior ênfase no mercado interno e caracterizada pela presença indispensável do governo, é um estágio pelo qual passaram todos os países de renda mais elevada entre os países em desenvolvimento, com maior ou menor precisão. Nesse sentido, não se pode negar a importância do intervencionismo estatal e da promoção da substituição de importações nos países de baixa renda que ainda precisam iniciar o processo de transformação estrutural.


Por outro lado, é preciso admitir que, uma vez vencida essa etapa inicial, os países latino-americanos seguiram com uma política de crescimento que se esgotou rapidamente, enquanto as economias asiáticas exportadoras de manufaturados demonstraram a flexibilidade e a capacidade de adaptação que as levaram a atingir taxas de crescimento econômico impressionantes.


Não há uma receita única, infelizmente, para o desenvolvimento. Liberalização, privatização e orientação para o exterior são medidas urgentes e essenciais para países como o Brasil, Argentina, México, Venezuela, Turquia, Grécia e outros que já atingiram um nível mínimo de industrialização. Nesses casos, a concorrência e a redução do papel do Estado, abrindo espaço para a iniciativa privada liderar uma nova onda de crescimento econômico, são o único caminho para evitar a estagnação crônica que afeta os países que se recusam a evoluir para um novo estágio de crescimento.


No entanto, para aqueles que ainda estão profundamente subdesenvolvidos, o modelo intervencionista de substituição de importações ainda oferece as melhores perspectivas. Não é mais, contudo, o caso do Brasil.


MARCOS CINTRA CAVALCANTI DE ALBUQUERQUE, 41, é doutor pela Universidade de Harvard (EUA), diretor da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas e consultor econômico desta Folha.

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