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  • Marcos Cintra - Folha de S.Paulo

Os riscos de reinflação

Domingo passado, analisamos nesta coluna alguns fatores que contribuíram para reverter as expectativas inflacionárias altistas que prevaleceram até recentemente. Hoje, abordaremos outros fatores que, hipoteticamente, estariam embasando o clima de relativa tranquilidade que tomou conta da economia, mas que, contudo, não resistem totalmente a uma avaliação mais rigorosa.


O primeiro se refere à evolução dos preços de ativos reais, que abrangerá as cotações do dólar no mercado paralelo. A queda no ágio sobre o mercado oficial não significa necessariamente uma contração na demanda por moeda forte. O ágio chegou aos elevados patamares de maio - 172% em média - não porque o dólar paralelo tivesse disparado, mas sim pela simples razão de que a cotação oficial estava atrasada em relação à inflação. Enquanto o IPC do início do ano a maio evoluiu 120,8%, a desvalorização do cruzado novo acumulou apenas 52,4%.


No momento, não é surpreendente que o ágio tenha retornado a valores próximos dos vigentes no final do ano passado - cerca de 65% - pois passamos a adotar uma política mais realista de desvalorização do cruzado. De fato, a taxa de câmbio já sofreu as correções necessárias, e desde o final de 1988 até agora, aumentou 215%; a taxa no paralelo se ajustou e, no mesmo período, evoluiu 218%, contra uma evolução acumulada do IPC, até julho, de 226%.


O que esses dados mostram é que não podemos inferir da queda do ágio no paralelo que as expectativas tenham revertido ao ponto de afirmarmos que existe hoje um clima de confiança na manutenção da estabilidade da inflação. No momento, o máximo que podemos inferir é que as expectativas são semelhantes às vigentes no último trimestre do ano passado, quando a inflação também beirava o patamar de 30% mensais. Cabe lembrar, ainda, que a grande valorização dos preços dos imóveis, também dos veículos, confirma a tese de que ainda há movimentos significativos de fuga do cruzado.


O segundo ponto de apoio usado para afirmar que a inflação está sob controle é a evolução dos agregados monetários. A expansão da base monetária em julho, de apenas 10,6% na média dos saldos diários, teria sido 50% maior caso as operações do Banco Central com títulos públicos não tivessem sido contracionistas como foram. No entanto, a colocação líquida de títulos públicos no mercado implica expansão equivalente no agregado monetário M4, uma medida mais abrangente da liquidez da economia. Assim, o maior controle da base monetária não pode ser diretamente relacionado com pressões inflacionárias mais fracas, como tem sido feito.


É importante alertar também para a necessidade de sustentar os controles monetários - um evento duvidoso na atual conjuntura - para que surjam impactos concretos nos preços. A defasagem entre um e outro fenômeno é longa e não permite uma relação imediata de causa e efeito.


Os resultados do Tesouro também merecem uma análise mais detalhada. De fato, de janeiro a julho, o déficit operacional foi baixo, 1,05% do PIB. Mas, apenas em julho ele atingiu 0,49%, confirmando a hipótese de que no segundo semestre as pressões se avolumam desproporcionalmente. Espera-se para 1989 um déficit operacional de mais de 5% do PIB. Para o próximo ano, ele deve aumentar ainda mais. Os desequilíbrios na Previdência surgirão com virulência e pressionarão o Tesouro. Somente o custo de pessoal e as transferências constitucionais aos Estados e municípios superarão as receitas previstas em quase 1% do PIB. Além disso, as autoridades têm praticado uma administração de caixa que dificilmente será sustentável por longos períodos. As retenções de pagamentos não podem durar indefinidamente, o que faz prever em breve novas e fortes pressões sobre as contas públicas. Neste ínterim, são poucas as providências estruturais capazes de equacionar a grave crise fiscal.


Além disso, novas pressões inflacionárias poderão surgir pelo lado dos custos. A rígida indexação salarial a partir de julho, inclusive para os funcionários públicos, e urgentes correções nos preços públicos - notoriamente defasados - deverão compor um conjunto de fatores aceleradores da inflação nos meses à frente.


A atual tranquilidade que parece ter se instalado na economia é bem-vinda e deverá contribuir para evitar acelerações inflacionárias imediatas. No entanto, parece estar fundamentada em bases excessivamente tênues.


 

MARCOS CINTRA CAVALCANTI DE ALBUQUERQUE, 43 anos, é doutor pela Universidade de Harvard (EUA), diretor da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas e consultor econômico da Folha.

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