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  • Marcos Cintra - Folha de S.Paulo

Conclusões precipitadas

Percebe-se no ar um clima de crescente preocupação com o futuro do Plano Collor. Paradoxalmente, houve uma radical mudança nas expectativas. Enquanto no início do plano argumentava-se que o governo havia errado na dosagem e que, portanto, lançaria o país na maior recessão de sua história, teme-se hoje que esteja havendo excesso de liquidez. Propala-se que a injeção de recursos na economia teria sido exagerada. Como prova, exibe-se a evolução dos preços de ativos de risco e das ações, a queda nos juros e outros indicadores de um afrouxamento relativo da contenção monetária.


Ainda é cedo para tais conclusões. É preciso não esquecer que a taxa de câmbio da moeda norte-americana caiu vertiginosamente logo após as medidas de estabilização; que as Bolsas sofreram quedas profundas; que os juros atingiram patamares superiores à casa de dois milhares de pontos percentuais por ano. Nota-se, portanto, que não há indícios de uma explosão de desconfiança no sucesso do programa do governo, mas sim de uma reacomodação de preços, após o cataclisma das primeiras semanas do Plano Collor. Até o momento, os sinais de descontrole não são suficientemente robustos para provar que o programa antiinflacionário do governo esteja ameaçado.


Há que lembrar ainda que o conceito de liquidez não é absoluto. Trata-se de um conceito relativo, que coteja a oferta com a demanda por meios de pagamento. Assim, o acréscimo de recursos monetários na economia não implica necessariamente um relaxamento de política monetária, pois com a recuperação do nível de atividade também aumenta a demanda por moeda. Logo após a decretação do Plano Collor, o nível de atividade caiu dramaticamente. Sua recuperação, aliás, amplamente desejável, vem ocorrendo nas últimas semanas, o que implica o acerto das previsões do governo. Afinal, o Plano Collor não pretende dizimar o setor produtivo da economia, apesar do clima de terra arrasada que prevaleceu nos primeiros dias após seu lançamento.


É certo que a distribuição da liquidez ainda é bastante desigual entre os vários setores da economia. Existem poças convivendo lado a lado com verdadeiros desertos. O nível de atividade ainda se encontra sensivelmente abaixo do que prevalecia antes do choque. Não existem, portanto, sinais que mostrem com um mínimo de confiabilidade que o plano de estabilização esteja fazendo água.

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