• Marcos Cintra - Folha de S.Paulo

Equipe enfraquecida


Os últimos desdobramentos da evolução inflacionária no Brasil refletem uma situação de incertezas, falta de liderança, perda de credibilidade e desorganização das autoridades econômicas. Além dos reptos a serem enfrentados pelo próprio combate à inflação, nota-se o surgimento de novos atores, despreparados para atuar na implementação de uma política de estabilização. E o caso da chegada em cena de ministros e governadores que passam a desafiar abertamente as autoridades econômicas, propondo alternativas frontalmente contrárias à orientação do Ministério da Economia.

O ministro da Justiça incendeia a discussão quando critica a política contencionista praticada pelo governo do, qual participa; autoridades regionais apresentam projetos de contra-ataque à contenção fiscal e monetária da administração federal. Ademais, surgem de dentro da própria equipe econômica indícios de discordâncias em relação ao plano de estabilização. Fala-se, dentro dela, no retorno à indexação salarial, ao controle de preços, redução de juros e fixação do câmbio. Compondo o quadro de desarticulação do atual governo, nota-se o lento andamento das reformas estruturais que foram a principal característica do início da gestão do presidente Collor.

Neste quadro de total confusão, os agentes econômicos acham-se desnorteados. Não surpreende, portanto, que a inflação de janeiro seja ascendente, mesmo que ti racionalidade econômica estivesse - indicando uma 'tendência de queda. As expectativas se desestabilizam e o comportamento defensivo mais óbvio por parte do setor produtivo indica a conveniência microeconômica de remarcações de preços. Os mercados futuros já sinalizam expectativas inflacionárias próximas de 25% para fevereiro. Prenuncia-Se a desintegração dos atuais esforços anti-inflacionários do governo, desestabilização da atual equipe econômica e os riscos crescentes de novas investidas confiscatórias.

No momento, não se trata mais de competência, ou falta dela. A questão principal é legitimidade e credibilidade, atributos que escasseiam junto às autoridades econômicas. Paradoxalmente, malgrado o acerto da política econômica adotada. Infelizmente, parece que, mesmo acertando, a atual equipe econômica continuará errando.

MARCOS CINTRA CAVALCANTI DE ALBUQUERQUE. 44, é doutor pela Universidade de Harvard (EUA), professor da Escola de Administração de Empresas da Fundação Getúlio Vargas, consultor de economia da Folha e presidente regional do PDS.

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