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  • Marcos Cintra - Folha de S.Paulo

Insulto


Três ingredientes contribuíram para deflagrar o vergonhoso incidente da bagagem dos tetracampeões: um grupo de esportistas e cartolas sem estrutura psicológica para absorver a fama e a glória conquistadas; um burocrata bem-intencionado, mas com traços de autoritarismo e de exibicionismo; e um sistema tributário irracional, transformado em caldo de cultura para evasão, sonegação e corrupção fiscais.

Reunidos no desembarque dos campeões, a combinação foi explosiva. As mais altas autoridades da República ordenaram o descumprimento da Constituição, mostrando que, embora a lei garanta que todos os cidadãos são iguais, alguns são mais iguais do que outros.

Toma conta de todos a sensação humilhante de quando, numa fila, passa à nossa frente uma "otoridade", acompanhada do burocrata de plantão.

Que todos os responsáveis por esse ultraje sejam punidos, inclusive o presidente da República, o ministro da Fazenda e o ex-secretário da Receita, que não cumpriu a lei, ainda que sob ordens superiores.

Não se trata só de recuperar os valores evadidos. Afinal, como diz o deputado Flávio Rocha, a evasão tributária no Brasil tem a dimensão "horária" de toda uma vida pública de corrupção do anão João Alves. Trata-se de resgatar a honra dos cidadãos de respeito.

Os campeões sucumbiram ao ranço cultural que acomete as pessoas de sucesso no país. Passaram a se julgar superiores. Frente à jactância de nossos novos-ricos, à arrogância de nossos políticos, por que seriam diferentes?

Não é sábio o governante que exige de seus governados o que eles não podem cumprir. Esta administração instituiu o terrorismo fiscal. O ex-secretário da Receita reconhece agora que o sistema está podre, que só o pobre paga imposto.

Mas nada fez para reformar o sistema. Preferiu o papel do implacável coletor de impostos. Tentou fazer da revista da bagagem dos futebolistas mais um espetáculo de suas qualidades pessoais. Mas, no final, acabou prestando um serviço ao país. Trouxe à tona algumas das coisas que precisam mudar, urgentemente.

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#ARTIGOS #Folha #1994