• Marcos Cintra - Folha de S.Paulo

Inferno astral


O governo vive seu pior momento -intrigas, escândalos e armações desgastam-no, provocam baixas de auxiliares e desviam o foco das atenções do Congresso Nacional de sua extensa pauta de trabalhos.

Primeiro, o grampo telefônico que levou à crise do Sivam. Tudo indica que o megaprojeto, desde seu início, mexeu com variados interesses, dentro e fora do país.

Seguiu-se o episódio da "pasta cor-de-rosa", no bojo da reestruturação do sistema financeiro. O fato foi transformado em nova crise política, com suspeitas de vazamento proposital de informações, o que, tudo indica, atingiu seu objetivo.

Agora, surgiu o reajuste salarial de 25% para os funcionários do Banco do Brasil, decidido pelo TST, contra medida provisória que obriga reposição de somente 20,94% -o IPC-r acumulado até junho. Teme-se que reacenda reivindicações pela volta da reindexação salarial.

A verdade é que essa sucessão de eventos e seus reflexos travaram as ações do governo e o trâmite de suas propostas de reformas constitucionais.

A reforma administrativa do setor público não deve frutificar tão cedo. A reforma tributária virou pacote de fim de ano.

A reforma da Previdência avivou os mesmos focos de atritos da primeira investida, com o agravante de sérios desentendimentos entre negociadores do governo e parlamentares envolvidos no exame da matéria. Sua apreciação no Congresso já foi jogada para o próximo ano.

As privatizações pouco avançaram neste governo.

Enquanto isso, as finanças públicas acusam déficits estruturais crescentes. O rombo orçamentário esperado para 1996 é de R$ 18 bilhões. Seria maior sem as mudanças no Imposto de Renda e a aprovação do FEF (ex-FSE).

A perdurar o desequilíbrio das finanças públicas, a estabilidade do Plano Real continua ameaçada. A saída é vencer o desafio de saneá-las e a esperança é a convocação extraordinária do Congresso. Seu desempenho, contudo, dependerá da superação das crises políticas que emperram a iniciativa do governo e o trabalho dos parlamentares.

Marcos Cintra Cavalcanti de Albuquerque, doutor em Economia pela Universidade de Harvard (EUA).

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