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  • Marcos Cintra - Folha de S.Paulo

Depois da tormenta


Uma tempestade, ou um incêndio, é terrível. Mas o pior pode vir depois, em seu rescaldo. A atual crise financeira semeou o pânico em todos os mercados do mundo. ​ A globalização e os misteriosos instrumentos financeiros criados nas últimas décadas fizeram um trabalho de quase completa destruição da credibilidade das instituições financeiras mundiais. ​ Felizmente, tudo indica que esse tempo passou. Mas fica uma esteira de destruição de valores por todo o espaço econômico global. ​ Cabe agora juntar os cacos e avaliar o que o futuro nos reserva. ​ Inicialmente, cabe apontar que, apesar de a violência do olho do furacão já haver se dissipado, o ambiente econômico é alarmantemente negativo. A crise financeira já contaminou os mercados reais. A falta de crédito, o entesouramento de valores e a suspensão dos investimentos já comprometeram o crescimento econômico futuro pela via dos canais de comércio e de transferências de capitais. A virulência da recessão que se avizinha já assusta as economias de todo o mundo desenvolvido, e a expectativa otimista de que os países emergentes seriam capazes de sustentar, ainda que fragilmente, a economia mundial torna-se cada dia mais irrealista. ​ Nesse terreno desolado existe apenas a sensação confortadora de que a pronta ação das autoridades econômicas em todo o mundo foi capaz de controlar o pânico. Balões de oxigênio contendo pura liquidez foram distribuídos abundantemente, mas, como alertou Anna Schwartz, em entrevista recente, o problema fundamental pode estar alhures, ou seja, na perda de credibilidade do sistema quanto à sua solvência. Reconstruir esse monumental edifício pode levar décadas. ​ O que esperar daqui para a frente? ​ Certamente haverá um período de acomodação dos mercados, como o que estamos adentrando no momento. Os fundamentos econômicos passarão a ser reavaliados, e as oportunidades de investimento serão timidamente avaliadas nos próximos seis meses a um ano. Os primeiros balanços e demonstrações de lucros e perdas após a tormenta ainda irão assombrar os mercados e os investidores. A volatilidade e a incerteza irão prevalecer, porém dentro de faixas estreitas e mais racionais. Essa deverá ser a marca dos meses à frente. Determinar valor de qualquer ativo será uma tarefa difícil e altamente arriscada. Será a hora das oportunidades, quando surgirão os vencedores dessa crise, e quando o mundo estará escolhendo seus novos. ​ Mas, como afirmei no início, o pior será o rescaldo. Como o mundo irá drenar a crescente liquidez que alaga os mercados mundiais? Como evitar as pressões inflacionárias que surgirão? Como refluir os capitais públicos que invadiram os “board rooms” das empresas em todo o mundo? Como evitar que a intervenção estatal, necessária no momento como um típico “bem público”, seja confundida com a estatização da gestão e com os ultrapassados métodos de produção centralizados? Como reconquistar credibilidade para o mercado e permitir que ele continue sendo o melhor mecanismo gerador de riqueza já usado pela humanidade? Como administrar o crescente endividamento do setor público e evitar o crescimento da carga tributária? Que blindagens contra futuras crises serão erigidas e que restrições ao crescimento econômico elas poderão implicar? Não temos respostas para essas dúvidas. O futuro será um emocionante desenrolar de novos desafios.

MARCOS CINTRA, doutor em economia pela Universidade Harvard (EUA), professor titular e vice-presidente da Fundação Getulio Vargas.

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