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  • Marcos Cintra

A crise global e o Brasil

Apenas em seu primeiro ano, a crise no mercado hipotecário de alto risco (subprime) nos Estados Unidos gerou perdas estimadas em mais de US$ 330 bilhões, valor que pode variar conforme o método de cálculo. Segundo a agência Fitch, metade do prejuízo refere-se a bancos e o restante às instituições financeiras que atuaram como garantidoras, além de seguradoras, administradores de recursos e fundos de hedge.


A crise do subprime tem sua origem em 2001, quando o Federal Reserve (Fed) passou a reduzir os juros nos Estados Unidos e o crédito imobiliário foi facilitado para consumidores com elevada probabilidade de inadimplência. Em meados de 2004, os juros começaram a subir e esses mutuários começaram a deixar de honrar seus compromissos.


A turbulência financeira começou a ser anunciada em 2006 e 2007 e se concretizou no final de 2008. A crise se deu porque, enquanto os juros subiam, o preço dos imóveis caía, e muitos mutuários não conseguiam renovar seus contratos. O problema é que o patrimônio recuperado pelo setor bancário valia menos, mas a dívida não foi reduzida.


O prejuízo causado pelo mercado imobiliário nos Estados Unidos teve forte impacto negativo sobre o crédito ao redor do mundo, sobretudo nos países ricos, e reduziu drasticamente o valor das ações dos bancos listados em Wall Street. A turbulência se espalhou pela economia mundial por conta de práticas financeiras de distribuição de risco. Em vez de manter esses financiamentos em carteira, os bancos norte-americanos repassaram esses créditos para outros agentes.


Nos Estados Unidos e na Europa, por conta de tanta incerteza e problemas de solvência bancária, os governos injetaram dinheiro público para minimizar a crise ao mesmo tempo em que a receita tributária caía por causa da recessão. Com isso, os déficits orçamentários cresceram e as dívidas soberanas explodiram, dando origem às atuais incertezas que podem ser o estopim para uma crise mais devastadora que a de 2008.


A nova turbulência global é uma questão de tempo. Estados Unidos e Europa representam quase metade do PIB mundial e terão que passar por um ajuste fiscal severo, de difícil encaminhamento. A recente negociação da dívida norte-americana não se traduziu em um plano fiscal abrangente, e o endividamento pode continuar crescendo. Na zona do euro há muita tensão social e isso dificulta cortes de despesas e aumento de tributos.


Em um mundo cada vez mais integrado, uma crise nos grandes centros mundiais pode causar estragos imediatos em outras economias. No Brasil, as turbulências em outras épocas impactaram negativamente e exigiram ajustes internos de grande magnitude, mas hoje o país já não é tão vulnerável.


A economia brasileira tem sido impulsionada pelo consumo das famílias, alavancado pelo aumento da massa salarial e do crédito, e os investimentos, estimulados pela construção civil. Ademais, a política monetária foi aperfeiçoada com o sistema de metas de inflação; a dívida externa é baixa; e as reservas internacionais, de US$ 350 bilhões, registram um nível recorde.


O Brasil atravessou bem a crise mundial de 2008. A que está se instalando deve ser mais aguda e pode ter impacto mais significativo no comércio exterior. De um modo geral, o país vai assimilar relativamente bem mais essa turbulência.


 

Marcos Cintra é doutor em Economia pela Universidade Harvard (EUA), professor-titular e vice-presidente da Fundação Getulio Vargas. www.marcoscintra.org

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