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  • Marcos Cintra

A crise nos EUA e o Brasil

O mercado financeiro internacional vive um momento de intensa volatilidade após ter sido detectada uma elevada inadimplência subprime, uma linha de crédito imobiliário de alto risco nos Estados Unidos. O temor de uma recessão mundial provocada por esse fenômeno ficou evidente durante a Reunião Anual dos Ministros das Finanças e Governadores de Bancos Centrais do G-20, ocorrida na África do Sul há poucas semanas. A avaliação do grupo, que reúne os principais países ricos e em desenvolvimento para discutir temas-chave para a economia mundial, é que a situação de instabilidade criada com a crise das hipotecas norte-americanas está longe do fim e irá afetar o mercado em geral.


A crise imobiliária norte-americana tem sua origem em 2000, quando o Federal Reserve (Fed) passou a reduzir os juros nos Estados Unidos e muitos consumidores refinanciaram suas moradias nos bancos. Quando, em 2003, os juros começaram a subir, a dificuldade dos consumidores em honrar seus compromissos surgiu, e a inadimplência no mercado subprime foi uma questão de tempo. Ocorre que a grande oferta de recursos reduziu o preço dos imóveis, e muitos mutuários endividados desistiram de suas casas. O problema é que o patrimônio recuperado pelo setor bancário valia menos, mas a dívida não foi reduzida. Estima-se que, apenas nos bancos, a perda será da ordem de US$ 60 bilhões.


O temido contágio que o abalo no mercado imobiliário norte-americano pode provocar na economia mundial gera tensão crescente ao redor do mundo. Em um mundo cada vez mais integrado, a propagação de uma crise de liquidez nos grandes centros mundiais pode causar estragos imediatos em outras economias.


No Brasil, as crises em outras épocas impactaram negativamente e exigiram ajustes internos de grande magnitude, mas hoje o país já não é tão vulnerável. Os fundamentos da economia brasileira encontram-se em boa situação para enfrentar um novo abalo externo.


Uma recessão nos Estados Unidos vai refletir na economia mundial e pode reduzir as perspectivas de crescimento global, afinal o país representa mais de um quarto do PIB mundial. O impacto mais significativo para a economia brasileira viria por conta da possível redução das exportações, o que reduziria o saldo comercial do país, mas o setor externo já vem registrando participação negativa no crescimento econômico.


A economia brasileira tem sido impulsionada por fatores internos. O crescimento do consumo das famílias, alavancado pelo aumento da massa salarial e do crédito, e os investimentos, estimulados pela importação de máquinas e maior volume de recursos para a construção civil, é que sustentam o avanço do PIB. Ademais, a política monetária foi aperfeiçoada com o sistema de metas de inflação a partir do final da década passada; a dívida externa é relativamente baixa; e as reservas internacionais, de quase US$ 180 bilhões, registram um nível recorde.


A instabilidade econômica mundial deve se prolongar ao longo do próximo ano, como previsto pelo G-20. A percepção de risco deve crescer caso haja indícios de perdas maiores do que as que se têm aventado no mercado internacional. Cogita-se que elas podem ultrapassar US$ 400 bilhões. Mas, dessa vez, a economia brasileira deve assimilar bem mais uma turbulência do mundo globalizado.

 

Marcos Cintra Cavalcanti de Albuquerque é doutor em Economia pela Universidade Harvard (EUA), professor titular e vice-presidente da Fundação Getulio Vargas.

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