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  • Marcos Cintra

A nova correção monetária

A recente alteração na metodologia de cálculo da correção monetária suscita dúvidas quanto a seus efeitos na inflação e no atual processo de indexação da economia brasileira. Durante o ano de 1982, enquanto o Índice Geral de Preços elevou-se 100%, a correção monetária atingiu valor equivalente, cerca de 98%. No entanto, durante o primeiro semestre daquele ano o IGP aumentou em 47%, e a correção monetária em 35,5%; e durante o segundo semestre, enquanto o IGP acusou aumento de 36%, a correção subiu bem mais acentuadamente, atingindo 54%.


Durante 1983 a correção monetária (156%) situou-se em patamares inferiores à inflação (211%). No entanto, esta última foi pressionada por dois importantes choques - a maxidesvalorização do cruzeiro, e o fraco desempenho do setor agrícola cujos preços no atacado evoluíram em 290% no período. No ano passado inaugurou-se um processo mais rígido de fixação da correção monetária, tornando-a exatamente igual à elevação do IGP no mês anterior, método que se estendeu até o momento.


Considerando-se o alto nível de indexação da economia, a igualdade entre a inflação do mês anterior e a correção monetária tende a transferir integralmente, para o futuro, o aumento de preços verificados no passado, contribuindo para criar um importante fator inercial na inflação brasileira. Como a tendência atual tem sido de elevação dos índices de aumentos de preços, o método adotado desde o ano passado introduz fortes componentes de rigidez no combate inflacionário, como pode ser visto nas séries mensais de inflação, cujos valores aglutinam-se em grupos homogêneos, sendo que os diferentes patamares em que se situam são explicados por choques externos (positivos ou negativos). Na falta destes, a inflação passada tornou-se, portanto, o melhor indicador da inflação futura. Por isto a correção monetária tornou-se importante componente psicológico na formação das expectativas acerca da elevação de preços.


A alteração no cálculo da correção monetária que vigirá a partir de maio consiste na substituição do IGP do mês anterior por uma média móvel calculada a partir dos IGP's verificados no quarto, terceiro e segundo meses imediatamente anteriores ao mês de vigência do novo índice (o do mês imediatamente anterior não é utilizado no cômputo).


Pela sistemática atual, as variações mais drásticas na inflação causariam efeitos correspondentes na correção monetária, as quais, pelos mecanismos de indexação, se propagariam rapidamente, iniciando-se assim, na ausência de novos choques, um processo pelo qual o novo patamar inflacionário é mantido nos meses seguintes.


O método agora proposto ameniza as flutuações que poderiam advir de variações bruscas no IGP. Assim, os efeitos de eventuais choques nos índices de preços não serão transmitidos, com a mesma magnitude, aos índices de correção monetária.


A média geométrica tem vantagem com relação à média aritmética a ser menos sensível a variações extremas, o que introduz outro importante elemento na desmontagem dos atuais mecanismos de formação de expectativas inflacionárias. Assim, a medida adotada pela autoridades econômicas, além da vantagem de possibilitar o conhecimento prévio da correção monetária num dado mês, é importante fator de redução da rígida indexação que atualmente caracteriza a economia brasileira.


Simulando-se os efeitos da aplicação do método da média geométrica móvel aos índices de inflação mensal nos últimos três anos observa-se que resultaria numa correção monetária acumulada cerca de 8,5% mais baixa do que a resultante da aplicação do último IGP como correção monetária. O mesmo cálculo aplicado desde março de 1984, resultaria numa diferença relativa equivalente a cerca de 4%. Vale lembrar, contudo, que caso a inflação seja decrescente, a utilização da média geométrica resultará em índices de correção monetária superior ao IGP do mês anterior.


Parece-nos, no entanto, ser precipitado criticar-se o mecanismo proposto face aos efeitos que surtiriam em circunstâncias que não se apresentam concretamente, já que atualmente, o temor é de exacerbação da espiral inflacionária. Um dos grandes problemas no momento é reduzir as expectativas inflacionárias, bem como iniciar-se um processo de gradual desmantelamento dos mecanismos de indexação. Neste sentido a atual providência dá um primeiro passo no caminho correto.


MARCOS CINTRA CAVALCANTI DE ALBUQUERQUE, doutor em Economia pela Universidade de Harvard (EUA) e professor do Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getulio Vargas.



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