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Cadê as Propostas?

O brasileiro não sabe exercer sua cidadania. Um exemplo de complacência no tocante à defesa de seus direitos é a tolerância com os desmandos da administração pública.


Felizmente, isso começa a mudar. Aos poucos, surge uma movimentação social em defesa de direitos e contra abusos. Mas ainda estamos longe do exercício pleno da cidadania como se vê nos países avançados. O brasileiro está aprendendo a reclamar, mas ainda não sabe reivindicar, até porque, em geral, os movimentos sociais não são acompanhados de propostas e de cobrança por ações específicas.


Na Folha de S.Paulo de 10/07/2006, critiquei essa situação no artigo "Está péssimo, mas qual a proposta?". Afirmei que a mobilização de protesto é louvável, mas que seus efeitos se esgotariam se não fossem seguidos de ações práticas.


Havia dito que movimentos como o da Rádio Jovem Pan — "Brasil, país dos impostos" — haviam cumprido um importante papel. E depois? O que fazer? Nesse ponto, a cidadania se silencia e tudo fica como antes. Da mesma forma, o milionário movimento "Quero mais Brasil", que uniu em 2006 entidades empresariais e sindicais, só resultou em mais faturamento para a mídia. Pouco restou de concreto.


Por que esses milhões de reais não são usados no financiamento de "think tanks", usinas de estudos e de propostas concretas para os problemas brasileiros? Por que sindicatos, federações e centrais de trabalhadores não investem na elaboração de caminhos a serem trilhados pelo país, em vez de só se queixarem? Aliás, essa questão começa a ser levantada, como pode ser averiguado no artigo "Think tanks — por que o Brasil precisa deles", de Raymundo Magliano Filho e Carlos Eduardo Lins da Silva ("Valor", 26/07/2007).


Em vez de só reclamarem, os movimentos sociais deveriam propor soluções em todos os setores, dos transportes à violência, da corrupção à sonegação, da política aos serviços sociais. Na questão tributária, por exemplo, em vez de bater em uma mesma tecla, a da abusiva tributação e a da pantagruélica burocracia, a mobilização dos cidadãos deveria evoluir para a apresentação de projetos. O risco é que, sem isso, a reforma tributária vire um bordão sem conteúdo ou, pior ainda, seja transformada em instrumento político-eleitoral, como tem acontecido ultimamente.


Temo que hoje se estejam repetindo esses erros. "Cansei", "Cansamos" e outras manifestações públicas, organizadas ou não, estão se tornando rotina. Mas são movimentos vazios de conteúdo. E o mais desanimador é que, apesar dessas manifestações de puro descontentamento, na hora decisiva das eleições o povo não muda sua atitude e mantém as coisas como sempre estiveram.


Cadê as propostas? Os formadores de opinião (entidades empresariais e de trabalhadores, partidos políticos, universidades etc.) devem cumprir seu papel de estabelecer um debate público de qualidade, sob pena de os politiqueiros e seus marqueteiros de ocasião continuarem ocupando esse vazio que se estabeleceu em nosso país.

 

Marcos Cintra Cavalcanti de Albuquerque é doutor em Economia pela Universidade Harvard (EUA), professor titular e vice-presidente da Fundação Getulio Vargas.

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