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  • Marcos Cintra

Consumo, inflação e contas externas

O mercado de trabalho que mais tem gerado empregos é o dos corretores de imóveis.


O consumo das famílias tem sido a principal força propulsora da economia brasileira. A demanda doméstica mais vigorosa decorre do maior volume de crédito para as pessoas físicas, da expansão dos recursos para assistência social, dos aumentos concedidos para beneficiários da previdência e da crescente massa salarial. Nos últimos anos, mais pessoas passaram a desfrutar de programas de assistência social, cujos repasses tiveram seus valores reajustados acima da inflação. O gasto com o Bolsa Família, por exemplo, cresceu 136% em seis anos, saltando de R$ 5,5 bilhões em 2004 para R$ 13 bilhões em 2010.


Em relação aos aposentados e pensionistas do INSS, houve um significativo aumento em oito anos para quem recebe um salário mínimo, contingente que representa cerca de dois terços dos 24,5 milhões de beneficiários. Esse grupo teve um ganho acima da inflação de 54% entre 2002 e 2010. O maior poder de compra dos beneficiários da seguridade social tem sido um dos sustentáculos da demanda aquecida, mas no mercado de trabalho há um movimento ainda mais significativo nesse sentido. Dados do IBGE revelam que desde março de 2002, quando a nova Pesquisa Mensal de Emprego (PME) começou a ser aplicada, até março de 2011, o número de desempregados nas seis regiões metropolitanas do país caiu de 2,6 milhões para 1,5 milhão. O índice de desocupados despencou de 12,9% para 6,5%. O contingente de ocupados saltou de 17,3 milhões para 22,3 milhões, e o rendimento real médio mensal dos trabalhadores cresceu de R$ 1.444,50 para R$ 1.557,00. A massa salarial mensal desse grupo passou de R$ 25 bilhões para R$ 34,7 bilhões no período. São R$ 9,7 bilhões a mais, equivalente a R$ 116 bilhões no ano, em recursos aplicados no consumo de alimentos, roupas, perfumaria, móveis e outros bens e serviços.


Vale citar que um segmento do mercado de trabalho que mais tem gerado empregos é o dos corretores de imóveis. Um indicador que mostra os bons ventos no setor refere-se ao número de inscritos no CRECI de São Paulo. Entre 2005 e 2010, a quantidade desses profissionais no órgão passou de 25 mil em 2005 para 100 mil em 2010.


No que se refere ao crédito para as pessoas físicas, os números também são significativos. Em janeiro de 2001, o volume total de recursos para os consumidores equivalia a 5,5% do PIB, e em março de 2011, esse montante correspondia a 15% do PIB. O que não tem faltado é dinheiro para financiar automóveis, eletrodomésticos, imóveis, passagens aéreas, etc.


Uma das áreas onde o volume de crédito mais tem crescido é o imobiliário, e essa expansão deve continuar nos próximos anos. Hoje, essa modalidade já equivale a 4% do PIB e, em 2014, pode alcançar 11% do PIB. A construção civil contempla um dos maiores multiplicadores de renda e emprego da economia, e esse volume crescente de recursos aplicados no setor tem sido um dos principais responsáveis pela manutenção da demanda aquecida.


Uma nova estrutura da demanda está se formando no Brasil com a incorporação de novos consumidores e com o maior poder de compra das pessoas. Porém, há uma luz amarela à frente referente à pressão que essa situação está causando sobre o nível de preços e no balanço de pagamentos. A inflação ao consumidor se descolou do centro da meta de 4,5% e já se aproxima do teto de 6,5%, e o saldo das transações correntes do balanço de pagamentos, que em 2005 foi superavitária em US$ 14 bilhões, no ano passado foi deficitário em US$ 47 bilhões e pode alcançar US$ 60 bilhões em 2011.


Para conter a inflação e o crescimento do déficit externo, o Copom aumentou a taxa Selic, o Banco Central dificultou a concessão de crédito e atua para reduzir a oferta de dólares, e o governo projeta cortar despesas e tenta controlar a entrada de capital estrangeiro através de IOF maior. Ocorre que até aqui essas ações produziram resultados tímidos, e aprofundá-las poderia ter efeito negativo considerável sobre o nível de bem-estar material mais elevado conquistado por um maior contingente de brasileiros, algo que o governo sinalizou que não deseja. Há muita incerteza no front.


O cenário atual exige muita sintonia fina entre as ações do Banco Central e do governo no sentido de se restabelecer a estabilidade monetária e o controle das contas externas sem que haja comprometimento dos avanços em relação ao crédito, ao emprego e à renda alcançados nos últimos anos. O momento exige prudência por parte dos economistas do governo, que se veem diante de um grande desafio.

 

Marcos Cintra é doutor em Economia pela Universidade Harvard (EUA), professor titular e vice-presidente da Fundação Getulio Vargas. (www.marcoscintra.org)


Publicado na Revista CRECI SP - Julho de 2011

Publicado no PL Impacto: 08/06/2011


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