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  • Marcos Cintra

Haja paciência

Os serviços de telefonia móvel e de transmissão de dados no Brasil vêm se degradando há anos e hoje encontram-se em estado lastimável. Frente a essa situação, a Anatel se mostrou omissa e só agiu no final do mês passado por conta da avalanche de reclamações dos usuários. Algo estranho a ser ressaltado nessa questão foi o fato de a Anatel ter autorizado nos últimos dias a volta da comercialização de novos chips pelas operadoras, apenas onze dias após a proibição da venda de novas linhas. Segundo a agência reguladora, as empresas se comprometeram a redirecionar recursos para melhorar os serviços, e "em quatro meses" o consumidor sentirá o efeito.


É difícil acreditar que em quatro meses as operadoras de telefonia celular vão melhorar significativamente os serviços. Hoje são 256 milhões os aparelhos que funcionam ou tentam funcionar, em uma infraestrutura precária, e a comercialização de novas linhas irá pressioná-la ainda mais. As empresas dizem que vão investir para minimizar os problemas de um sistema saturado e que ainda poderão atender a demanda adicional.


As operadoras conseguiram convencer a Anatel de que têm condições de receber novos clientes, e a pergunta que fica é: como é que em tão pouco tempo elas vão ampliar suas bases operacionais para minimizar os péssimos serviços de celular e de internet para as atuais linhas e ainda dar condições adequadas para as que estão sendo comercializadas? É um absurdo a situação ter chegado ao ponto a que chegou. Nos últimos anos as operadoras induziram o aumento da demanda por serviços de telecomunicações sem que houvesse investimentos adequados para elevar a capacidade de atendimento. Há anos elas vêm comercializando chips a baixo custo e oferecendo serviços ilimitados de internet e conversação a preços irrisórios. Por alguns centavos o usuário pode ficar horas falando em um aparelho celular. Em 2011 foram 115 minutos em média por mês, 34% a mais em comparação com 2010. Entre 2009 e 2011 o tráfego de voz cresceu 85%, e entre 2009 e 2010 o fluxo de dados (internet) aumentou 112%.


Em 2011 foram vendidos no Brasil 9 milhões de smartphones, aparelhos móveis que acessam a internet, e neste ano serão comercializados mais de 15 milhões deles. Até 2016 a internet através desses aparelhos deve ser multiplicada por 20. No curto prazo não dá para fazer muita coisa em termos de melhoria nos serviços. Hoje a situação já está um caos, e a combinação da expansão dos aparelhos "smarts" com os serviços ilimitados de voz e de dados vai exigir uma dose adicional de paciência dos usuários de serviços de telecomunicações no país.


É ótimo que haja oferta de aparelhos e serviços a baixo custo, mas é inadmissível a ineficiência das operadoras quando o usuário precisa se comunicar ou obter informações. É uma irresponsabilidade, compactuada com a Anatel, a indução da demanda pelas empresas frente aos medíocres serviços que elas oferecem. Isso é zombar do cliente.


 

Marcos Cintra, doutor em economia pela Universidade Harvard (EUA), é professor titular e vice-presidente da Fundação Getulio Vargas



Publicado no Jornal do Brasil: 16/08/2012

Publicado na Revista AMais: Setembro de 2012

Publicado na Gazzetta D'Italia: Agosto de 2012


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