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  • Marcos Cintra

Não à hiperinflação

A proposta de um recongelamento provisório de preços e salários vem sendo criticada de diversos ângulos. O principal ponto levantado é que uma correção uniforme de preços poderia não ser suficiente para alguns setores, ao passo que para outros, cujos preços se acham adiantados, este critério seria excessivamente favorável.


Outras ressalvas estão centradas na reduzida viabilidade de se obter o cumprimento de novo congelamento, no perigo de reedição dos mesmos erros observados durante o Cruzado 1, na falta de credibilidade do atual governo para implementar um novo choque, e na possibilidade que esta política acabe arrochando salários.


Quanto à credibilidade e preparo da equipe econômica, o presidente Sarney, mais do que ninguém, deve avaliar a situação e tomar as medidas necessárias. Sem o pressuposto da autoridade e da competência do governo, qualquer discussão sobre os rumos da economia perderia sentido. Ademais, não se deve subestimar o poder que se concentra na administração federal, nem o desejo da população, sem dúvida ingênuo, de ter os preços congelados, de preferência em caráter definitivo.


A vantagem do reajuste linear e do imediato e provisório recongelamento é a de reduzir as expectativas inflacionárias, embora não tenha condições de eliminá-las. Atualmente, os empresários reivindicam reajustes e praticam ágios, que têm muito mais um caráter preventivo do que meramente corretivo. Isto ocorre devido à total inviabilidade de se estimar a evolução dos demais preços e dos salários. Cria-se um circuito inflacionário, que além de dificultar a obtenção de preços relativos de equilíbrio, ainda poderá facilmente levar a uma desnecessária hiperinflação, decorrente unicamente de uma falta de coordenação no processo de realinhamento.


Uma regra de reajuste geral tem inequívocas vantagens, mas também algumas desvantagens. Entre as primeiras destaca-se a possibilidade de ser imediatamente implementado, estrangulando a exacerbação das expectativas inflacionárias; como muitos preços já se acham bastante agiados, o congelamento nos níveis de fevereiro mais 25% forçará em muitos casos correção para baixo, que poderá resultar num aumento dos salários reais, contrariamente ao que dizem as lideranças sindicais, e os realinhamentos de alguns preços defasados desde início do ano passado, como os combustíveis, energia elétrica, leite e outros, serão congelados nos níveis correntes, garantindo assim que o desequilíbrio inicial não seja restabelecido.


Quanto ao fato de alguns setores da economia estarem com preços adiantados, o programa deve garantir flexibilidade suficiente para que o ajuste seja revisto. Existem também questões operacionais, tais como a adaptação de uma nova tabela de conversão para os contratos prefixados que já embutem altas expectativas inflacionárias; são problemas facilmente contornáveis, desde que não se parta de hipóteses inviáveis, como a inflação zero incorporada na "tablita" em vigor.


A implementação deste programa não irá erradicar a inflação, nem mesmo durante o congelamento. Mas criará condições para uma drástica queda nas taxas de juros de curto prazo, dará tempo e poder de iniciativa ao governo para apresentar uma política econômica confiável e poupará um doloroso e iminente processo hiperinflacionário, que muitos, incompreensivelmente, preferem deixar acontecer, para depois agir.

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