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  • Marcos Cintra

O índice inflacionário e o plano Bresser

MARCOS CINTRA CAVALCANTI DE ALBUQUERQUE

Consultor de Economia da Folha


As suspeitas de que a inflação de agosto (coleta entre 15 de julho e 15 de agosto) possa superar 6% lançaram o Plano Bresser num turbilhão de incertezas. Expectativas igualmente desalentadoras surgem ainda pelo lado do controle do déficit público, pois ainda não há evidências de que as autoridades econômicas tenham sucesso em manter o desequilíbrio orçamentário do governo no limite de 3,5% do PIB, como definido no Plano de Controle Macroeconômico.


Se a taxa de inflação chegar a 6% em agosto, as perspectivas são de turbulência à vista? Não necessariamente.


Há fatores altamente negativos naquela taxa de aumento dos preços. Em primeiro lugar, porque ela foi produzida dentro de um contexto de congelamento. Isso significa dizer que alguns preços aumentaram muito além de 6%, ao passo que outros permaneceram estáveis. Nestas circunstâncias, o potencial de desestruturação da relação de preços é muito grande. Não tanto pelos 6% em si, mas pela dispersão das taxas setoriais de inflação em torno daquela média. Criam-se assim condições extremamente difíceis ao início da fase de flexibilização, pois existirão setores com grande disparidade entre preços e custos. Este problema se agrava com níveis inflacionários mais altos. Outro efeito preocupante do crescimento da inflação está na corrosão dos salários reais, que entre janeiro e junho caíram cerca de 30%. O gatilho pago em junho e a baixa inflação de julho possibilitaram uma ligeira recuperação de cerca de 6% no poder aquisitivo do assalariado, mas a inflação prevista para agosto deverá anular este pequeno ganho.


É preciso lembrar, contudo, que a partir de setembro os salários passarão a ser corrigidos pela Unidade de Referência de Preços, acrescida das parcelas dos resíduos do gatilho deixados antes de junho. Se a inflação não entrar numa trajetória de alta nos meses de outubro e novembro, os salários reais se estabilizarão em patamares próximos aos de junho último.


Neste ponto surge a questão crucial. Embora alta pelos padrões inicialmente projetados pelo governo, uma inflação de 6% em agosto não será o fim do Plano Bresser, se ela for estabilizada naquele nível. O importante é que o governo tome as medidas corretivas e preventivas adequadas para evitar que ela fuja de controle. É preciso evitar que o cochilo da explosão da base monetária de julho se repita. A flexibilização deve ser um processo ordenado de controle de preços, e acima de tudo é essencial que se criem condições para uma drástica amputação dos gastos do setor público. Dentro deste rol de providências, o mais importante pelo significado simbólico de que se reveste é o controle do déficit público. Não bastará aparar arestas; é imprescindível uma forte demonstração de que o governo pode, e deseja, praticar política fiscal. Se isto não ocorrer, a economia estará caminhando para uma nova crise; e para um novo congelamento que será igualmente frustrante.

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