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  • Marcos Cintra - Folha de S.Paulo

Para não errar de novo


Os problemas de uma das maiores aglomerações humanas do mundo, como São Paulo, faz do administrar a cidade um instigante desafio tanto para o homem público como para o eleitor, a quem cabe escolher seus futuros administradores. ​ A metrópole, provida de um parque industrial diversificado e moderno e de um setor terciário amplo e ágil, em expansão, mantém seu apelo de fonte de oportunidades e está se tornando, rapidamente, um centro prestador de serviços sofisticados, em linha com a era do conhecimento e da globalização. ​ A abertura econômica e a exposição à competição externa forçaram a desejada modernização de empresas. Mas, por outro lado, fizeram surgir a face horrenda desse fenômeno: uma enorme crise de desemprego estrutural, mãe e gestora de grande parte dos males que afetam a cidade, entre eles a insegurança, a violência, a favelização, a informalidade e a desestruturação dos valores da família. ​ O mercado de trabalho, hoje, exige qualificação da mão-de-obra, especialização em nichos bem definidos -do ensino, dos altos negócios, das finanças, das comunicações, da medicina, da cultura, da tomada de decisões estratégicas. É nesse ponto que a nossa cidade falha miseravelmente. ​ Daí a necessidade de preparar São Paulo para as demandas desse novo tempo. Ações nesse sentido devem ser arrojadas e ao mesmo tempo cautelosas. Paradoxo do seu peso econômico, vez que movimentos mal ou bem-sucedidos aqui perpetrados podem afetar toda a economia brasileira. ​ A par dessa era de grandes mudanças, a cidade de São Paulo vive profunda crise de credibilidade política e institucional, agravada por séria escassez de recursos, formando um quadro no qual discutir planos detalhados de governo em campanha eleitoral é, infelizmente, vazio de significado. ​ A situação financeira da Prefeitura do Município de São Paulo é de penúria. O contrato de refinanciamento de sua dívida, superior a R$ 10,5 bilhões, confirma as duras condições impostas pelo governo federal para a dívida municipal. A prefeitura cede autonomia na movimentação de suas contas correntes, pois o agente financeiro do governo federal poderá efetuar débitos e apropriar-se de receitas municipais. A falta de condições financeiras poderá asfixiar serviços públicos básicos na metrópole paulistana e até a manutenção de suas sofríveis condições atuais. ​ Nesse quadro de grandes limitações, os futuros prefeitos de São Paulo terão de administrar criteriosa e escrupulosamente as finanças da prefeitura, impondo rigorosa seleção de gastos. Terão principalmente de levar em conta e trabalhar com as equipes técnicas interdisciplinares dos quadros da prefeitura, examinando e selecionando com elas o estoque de projetos que lá existe e elegendo com o seu concurso, o apoio da população e da classe política aqueles prioritários e principalmente passíveis de execução e operação eficaz em conjuntura de aguda escassez financeira. ​ Em circunstância adversa como a que vive a cidade de São Paulo, a população será levada a ser extremamente rigorosa na escolha do candidato a prefeito e daqueles a vereador, considerando sua origem, seu passado, sua trajetória política, sua formação, sua postura e seu caráter. ​ A cidade reclama renovação, novos valores políticos. Outros partidos, outros candidatos já passaram pela prefeitura paulistana e já mostraram seu estilo, seu modo de trabalhar, sua capacidade (ou falta dela) de realizar. É preciso cautela para não errar de novo. ​ Formação, experiência e sólida postura ética e moral são predicados essenciais no bem discernir e maduramente decidir, sem contudo temer mudar e implantar novo estilo de bem gerir a coisa pública. Mesmo correndo o risco de ser presunçoso, creio ser eu a única novidade nesta eleição. Mas, entre achar algo e fazer o eleitor acreditar o mesmo, há um amplo e ameaçador abismo. ​ Se os meios de comunicação de massa, que tanto alardeiam a necessidade de renovar e de melhorar a política paulistana, abrissem espaço para o surgimento dessas novas propostas, quem sabe esse espaço poderia ser vencido mais rapidamente e, seguramente, com menos riscos de repetição de velhos erros.

MARCOS CINTRA, doutor em economia pela Universidade Harvard (EUA), professor titular e vice-presidente da Fundação Getulio Vargas.

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