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  • Marcos Cintra

Tudo ou nada


É inacreditável, porém não menos verdadeira, a forma como o presidente Sarney pretende pôr em execução um novo plano de estabilização da economia. Em vez de prestigiar de todas as formas possíveis os membros de sua equipe econômica, o presidente prefere minar a confiança que despertam na população, dando a impressão de que outros economistas e empresários, fora do governo, são mais capazes do que seus próprios auxiliares.


Um plano radical de combate à inflação, como o que o presidente e alguns de seus ministros têm alardeado, corre riscos consideráveis se não forem avaliados cuidadosamente os perigos da operação que desejam colocar em prática. Em última análise, trabalham contra si próprios.


No atual quadro, as consequências do fracasso do plano de estabilização seriam enormes. As alternativas em pauta envolvem, basicamente, a aplicação de um redutor nas metas de congelamento ou, alternativamente, uma flexibilização dessas metas. No primeiro caso, existem sérias dúvidas quanto à abrangência do redutor. Há propostas no sentido de não aplicá-lo ao câmbio e aos ativos financeiros, enquanto outros preconizam um redutor generalizado. Em ambas as alternativas, contudo, se a inflação continuar, jamais terão a capacidade de ultrapassar a previsão, tornando-se ineficazes. Tudo isso ressalta a importância de um plano econômico com base sólida, responsabilidade e solidez teórica. Seria ideal se, além de bem formulado, o programa de estabilização pudesse ser aplicado por uma equipe ministerial encabeçada por homens respeitados, como é o caso dos atuais ministros da Fazenda e do Planejamento, que não tenham sofrido o desgaste das frustrações econômicas recentes, como infelizmente ocorre com a dupla Mailson-Abreu. No entanto, isso não justifica o comportamento do presidente, que aparentemente distribui convites para ministérios econômicos e busca sugestões de economistas isolados, num esforço aparentemente paralelo ao desenvolvido por seus próprios colaboradores.


Agindo dessa forma, o presidente Sarney compromete o sucesso de qualquer esforço antiinflacionário. Não está tomando as precauções necessárias, como pode até ser sua intenção, mas sim, ampliando os obstáculos no caminho de uma hiperinflação. No caso de um congelamento, qualquer desvio em relação ao planejado também poderá ser fatal. Credibilidade, autoridade e seriedade são essenciais para evitar novas frustrações.


O certo é que a aplicação de um choque na economia necessariamente causará desequilíbrios que dificilmente serão revertidos caso a inflação persista. Uma defasagem no indexador financeiro provocará fugas de capital que não serão revertidas com facilidade. As opções se limitarão à estabilidade de preços ou à hiperinflação.


Se o presidente não confia em sua atual equipe econômica, o melhor é não tentar nada. O insucesso precipitará o pior.


 

MARCOS CINTRA CAVALCANTI DE ALBUQUERQUE, 43 anos, é doutor pela Universidade de Harvard (EUA), diretor da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas e consultor econômico desta Folha.


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