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Truques e macetes

Marcos Cintra - Folha de S.Paulo
17 de jul. de 1994
2 min de leitura

Atualizado: 5 de abr. de 2021

O Plano Real já começa a enfrentar algumas das muitas crises que virão nos próximos meses. A nova moeda foi aceita pela população com entusiasmo, mas algumas tensões já se fazem sentir.

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Começam a aflorar os problemas que o fracasso das reformas estruturais empurrou para debaixo do tapete, mas que começam a cheirar mal.

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Em primeiro lugar, os salários foram convertidos pelas médias. Mas os aumentos de preços no final de junho, ainda não captados pela inflação, imporão perdas significativas ao poder aquisitivo dos salários.

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Ademais, a inflação residual, estimada em cerca de 5% em julho, deve motivar pleitos por correções salariais. Compromete-se assim o congelamento dos salários, dando-se início a pressões pela reindexação.

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Os primeiros embates poderão ocorrer na data-base de setembro, quando os bancários reivindicarão as perdas de cerca de 15%, mais a inflação em reais de julho e agosto.

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Um segundo foco de tensão se encontra nos juros altos. Trata-se de necessária defesa contra os que apostam contra o plano. Mas pressionam os custos de vários setores, que já buscam repasse dos encargos financeiros aos preços. E também pressionam os orçamentos governamentais, já que o setor público é o grande tomador de recursos na economia.

Nota-se ainda que o congelamento cambial –e a inesperada valorização do real frente à URV– poderá gerar fortes tensões comerciais. Os exportadores perderam cerca de 10% de sua competitividade externa.

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Embora o estoque de divisas seja mais do que suficiente para sustentar esta situação artificiosa por muitos meses, o custo social desta política poderá ser substancial. Além de recessiva, poderá implicar perdas significativas do estoque de divisas.

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O Plano Real vai bem. Mas poderá fazer água muito mais depressa do que se imagina. Por enquanto, foi apenas uma bem-executada troca de moeda, com o objetivo de extirpar a inércia inflacionária.

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Mas, no que se refere às variáveis básicas e fundamentais da economia, como salários, câmbio e juros, nota-se apenas a artificialidade de tudo.

MARCOS CINTRA, doutor em economia pela Universidade Harvard (EUA), e professor titular da Fundação Getulio Vargas.

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